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Metrô, Concessões e Eleições: a Quem Serve Essa Engenharia?

  • 13 de jul.
  • 6 min de leitura

por Luís Kolle*


Estação da Linha 6-Laranja do Metrô — Foto: Roberto Sungi
Estação da Linha 6-Laranja do Metrô — Foto: Roberto Sungi

Ao longo dos últimos meses, tenho tratado publicamente de dois temas que, à primeira vista, podem parecer questões técnicas isoladas: a inauguração apressada da Linha 6-Laranja, que analisei em um artigo no LinkedIn, e a falta de transparência em torno da Linha 16-Violeta, que abordei em entrevista ao Mobilidade Estadão, em fevereiro de 2025.


Quando observamos com mais cuidado, porém, fica claro que não se trata apenas de problemas pontuais, nem de “acertos e erros” de um projeto ou de outro. Esses dois casos revelam uma mesma lógica de fundo: um modelo de expansão metroviária que concentra poder e recursos em grandes empreiteiras privadas, como a ACCIONA, enfraquece deliberadamente a Companhia do Metropolitano de São Paulo e é orientado, cada vez mais, por interesses eleitorais, e não pelos princípios básicos da boa engenharia e do interesse público.


No caso da Linha 6-Laranja, mostrei como uma obra ainda em fase de testes e ajustes foi apresentada à população como se estivesse efetivamente pronta. Operação manual, velocidade reduzida, poucos trens em circulação, intervalos elevados, sistemas ainda incompletos e integrações aquém do padrão que São Paulo aprendeu a exigir de seu metrô foram empacotados como “entrega histórica”. Tudo isso amarrado a aportes bilionários de recursos públicos, cercados por sigilo e por pouca disposição em explicar à sociedade as condições dessa relação entre Estado e concessionária. Em vez de uma engenharia guiando o tempo político, assistimos ao contrário: o calendário eleitoral organizando a engenharia, a operação e a comunicação.


Na Linha 16-Violeta, o problema se repete sob outra forma: falta de transparência, dificuldade de acesso a informações essenciais, opacidade na modelagem dos contratos, dúvidas sobre repartição de riscos, garantias oferecidas e forma de remuneração. Mais uma vez, o ator central é a ACCIONA, beneficiária de um conjunto de parcerias extremamente vantajosas com o governo do Estado de São Paulo, em especial por meio da Secretaria de Parcerias e Investimentos. Não estamos falando de um acaso, mas de um padrão. E esse padrão precisa ser nomeado: trata-se de uma política de Estado capturada por interesses privados específicos, estruturada para produzir ganhos eleitorais e consolidar um modelo em que o poder público abre mão de sua capacidade técnica e de seu protagonismo em nome de uma suposta eficiência que, na prática, pouco se submete ao escrutínio público.


Faço essa análise não apenas como observador ou comentarista, mas a partir das responsabilidades que assumo hoje. Como diretor do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo, tenho o dever de defender a valorização da engenheira e do engenheiro, de proteger o trabalho técnico qualificado e de alertar a sociedade sempre que a engenharia é reduzida a mero instrumento de propaganda. Quando uma linha de metrô é inaugurada sem estar plenamente pronta, quando se atropelam padrões de confiabilidade, quando se subestimam os riscos operacionais e se esvazia a crítica técnica em nome de uma foto de fita cortada, o que está em jogo não é apenas um desrespeito à categoria profissional. É um desrespeito à própria população, que confia a sua vida e seu tempo a sistemas que deveriam ser projetados e operados com o máximo de rigor.


A engenharia, neste contexto, não é um detalhe periférico; é o centro do debate. É justamente por isso que, além da atuação sindical, exerço também a função de diretor regional São Paulo da Engenharia pela Democracia. Nessa organização, defendo a engenharia como princípio de desenvolvimento e também como instrumento de soberania no avanço tecnológico do nosso país. Isso significa afirmar que o Brasil deve ter capacidade própria de planejar, projetar, executar e operar suas infraestruturas estratégicas, sem se tornar refém de poucos grupos empresariais estrangeiros ou nacionais. Quando o governo de São Paulo escolhe, reiteradamente, colocar a ACCIONA no centro de grandes projetos metroviários, ao mesmo tempo em que esvazia o Metrô como empresa pública de engenharia, ele não está apenas tomando uma decisão administrativa: está fazendo uma escolha de projeto de país, de quem controla o conhecimento, a tecnologia e o futuro dos serviços essenciais.


É preciso dizer com clareza: grande parte do que hoje se terceiriza para empreiteiras privadas poderia ser feito pela Companhia do Metropolitano de São Paulo, caso o Estado optasse por fortalecer sua estrutura técnica em vez de enfraquecê-la. O Metrô acumula décadas de experiência, formou gerações de engenheiras e engenheiros, construiu boa parte da rede que hoje garante mobilidade a milhões de pessoas. Ao transferir progressivamente esse papel para consórcios liderados por empresas como a ACCIONA, o governo não está “modernizando” a gestão; está reduzindo a capacidade pública, fragmentando o conhecimento, deslocando a engenharia brasileira para a periferia do processo decisório e transformando o Estado em comprador cativo de expertise externa. Do ponto de vista da Engenharia pela Democracia, isso é o oposto de soberania tecnológica: é dependência planejada.


Essa escolha não é neutra, tampouco é apenas técnica. Ela tem um sentido político muito claro. Há um projeto em curso no Estado de São Paulo que utiliza grandes obras de infraestrutura, especialmente no transporte sobre trilhos, como plataforma de visibilidade para a reeleição. Inaugurar linha em fase de teste, falar em “revolução” na mobilidade sem garantir operação plena, esconder detalhes de contratos sob sigilo e concentrar negócios em poucos grupos empresariais fazem parte de uma mesma estratégia: produzir imagem de eficiência e modernidade, mesmo que isso custe o rebaixamento dos padrões de engenharia, o desperdício de recursos públicos e o esvaziamento de empresas públicas estratégicas.


Quando insisto em criticar a pressa na Linha 6 e a falta de transparência na Linha 16, não estou discutindo pormenores contratuais ou travando uma disputa corporativa. Estou apontando um problema estrutural: a engenharia foi empurrada para fora do centro das decisões e substituída pela lógica do marketing e da conveniência eleitoral. O modo de transporte metropolitano sobre trilhos, que deveria ser símbolo de planejamento de longo prazo, estabilidade técnica e compromisso com a qualidade, é transformado em palco de inaugurações apressadas, coletivas de imprensa e promessas vagas para um futuro indefinido. E tudo isso sob a aparência de parceria moderna entre Estado e iniciativa privada.


Como sindicalista, minha responsabilidade é defender que a engenheira e o engenheiro tenham condições de exercer seu trabalho com autonomia, respeito e critérios técnicos sólidos, sem serem pressionados a avalizar cronogramas irreais e anúncios precipitados. Também de minha responsabilidade é denunciar qualquer política que, em vez de fortalecer a capacidade pública, aprofunde a dependência de poucos grupos privados e submeta o planejamento de infraestrutura a objetivos imediatistas de poder.


Engenharia não é adereço de plano de governo; é o alicerce material da democracia. Sem uma engenharia pública forte, valorizada e soberana, o país perde capacidade de decidir o próprio futuro. Nos trilhos, isso se traduz em linhas que não conversam entre si, contratos que ninguém compreende por inteiro, riscos que não são debatidos abertamente e populações inteiras que ficam sujeitas a um serviço que não corresponde ao potencial técnico que temos. É por isso que, quando questiono a centralidade da ACCIONA e de outras empreiteiras nessa política de concessões, o que está em jogo não é ser contra ou a favor da iniciativa privada. O que está em jogo é quem manda na cidade, quem manda no transporte, quem manda na tecnologia e quem decide o sentido dos investimentos públicos.


A estratégia adotada pelo governo de São Paulo, ao que tudo indica, está menos comprometida com a construção de um sistema de transporte sólido, transparente e guiado pela melhor engenharia, e mais focada em acumular obras “visíveis” para sustentar um projeto de reeleição. Quando isso acontece, a crítica não é opção: é dever. Em nome da categoria que represento no Sindicato dos Engenheiros e em nome do projeto de soberania tecnológica que defendemos na Engenharia pela Democracia, sigo afirmando que a população tem direito a um metrô planejado com rigor, operado com responsabilidade e financiado com transparência. E que as intenções do governo, especialmente quando misturam obras públicas e calendário eleitoral, precisam ser expostas e discutidas à luz do dia.


Valorizar a engenharia e fortalecer o Metrô é, ao mesmo tempo, um ato de defesa da qualidade do serviço público e um ato de defesa da democracia. Quando obras ganham a dianteira sobre pessoas e contratos se tornam mais importantes do que critérios técnicos, perdemos todos. Quando a engenheira e o engenheiro são reconhecidos como protagonistas e a sociedade é tratada como sujeito do debate, e não como mera plateia de inaugurações, abrimos caminho para um outro tipo de política: uma política que não tem medo de transparência, nem de rigor, nem de dizer com todas as letras quais são suas intenções. É essa política que precisamos cobrar de qualquer governo, inclusive daquele que hoje usa o metrô como vitrine para tentar permanecer no poder.


*Luís Kolle é Engenheiro Civil com 28 anos de experiência em mobilidade urbana sobre trilhos, foi presidente da AEAMESP, é Diretor para o Estado de São Paulo da Diretoria Regional Sudeste da EngD.


Publicado originalmente no Linkedin do autor em 13/07/2026.


As matérias assinadas não representam necessariamente a opinião da EngD.


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