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A depender do governador Tarcísio o futuro da Sabesp será a volta ao passado

Por Amauri Pollachi, conselheiro da EngD e do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS) e ex-presidente Associação dos Profissionais Universitários da Sabesp (APU).


Dias atrás, ao revirar antigos documentos, encontrei um empoeirado conjunto de cópias de originais datilografados com esmero: o catálogo de unidades, endereços e telefones da SABESP de 1988. Ao folhear suas páginas encontrei os nomes de diretores, superintendentes, gerentes. Muitos admirei. Outros eram poderosos. Uns sumiram. Outros estão por perto. E há quem é saudade...


No catálogo havia o desenho das ‘caixinhas’ da estrutura organizacional com presidência e sete diretorias: comercial, de construção, administrativa, financeira, de planejamento, operacional da região metropolitana e operacional do interior. Em 1988, todas as funções administrativas, as vírgulas jurídicas, as compras de parafusos ou de um motor, só com ordem da Diretoria Administrativa. Projetos ou obras de expansão ou melhorias em qualquer cidade só podiam acontecer sob a poderosa Diretoria de Construção. Cabia à Diretoria Comercial a gestão completa dos sistemas de medição, faturamento e atendimento. Nada era planejado fora da Diretoria de Planejamento e nenhuma função econômico-financeira estava fora da DF. No Interior, se fazia manutenção e operação em cerca de 250 municípios. Na Metropolitana, somente operação e manutenção com as superintendências que mimetizavam as companhias formadoras da SABESP: produção (Comasp), tratamento de esgotos (Sanesp) e distribuição e coleta (os distritos regionais da Saec).


Essa estrutura era marcada por excessiva centralização funcional decisória, bem como desequilíbrio entre áreas meio e fim. Foi um dos vetores que conduziram a empresa para uma crise sem precedentes em meados dos anos 1990.


Na mesma semana desse meu achado histórico, a nova gestão da SABESP divulgou o desenho de uma ampla reestruturação organizacional. Foi inevitável a comparação com a organização de 1988, constatando-se incríveis semelhanças. Por óbvio, os nomes compostos das diretorias estão adaptados aos tempos de ESG: Diretorias de Clientes; Engenharia e Inovação; Novos Negócios e Regulação, Econômico-financeira e Relações com Investidores; Gente e Gestão Corporativa; Operação e Manutenção.


O linguajar empresarial agora usa franquias de palavras como ERP, FEEDBACK, ODS, CSC, CAPEX, etc. A direção afirma que faz uma ampla reestruturação que não acontecia há 35 anos. Só que não! Esse modelo de empresa agora imposto por um grupo de tecnocratas foi um absoluto fracasso no passado. Por isso foi substituído pelas Unidades de Negócio em 1995, após amplo processo participativo e de envolvimento consciente da comunidade sabespiana.


A Sabesp não é um banco, não é uma seguradora! Ela tem características próprias do saneamento, de seu porte e de sua dimensão territorial! Qual empresa do ramo químico tem grandes plantas químicas – as nossas ETAs e ETEs – distintas entre si e geograficamente distantes que operem sem um gerente de fábrica?


A tecnocracia recém entronizada no poder já refletiu que a SABESP não é uma empresa de prestação de serviços municipal, de marketing digital ou de logística? Que o atendimento descentralizado de saneamento às demandas de quase 30 milhões de pessoas, 375 prefeitos e cerca de 4.000 vereadores jamais prescinde do ser humano presente no local e com capacidade de pronta resposta? Que a SABESP não é a Iguá?


Inevitável lembrar da série ”De Volta para o Futuro”, em que Marty McFly e Doc Brown viajam ao futuro e ao passado a bordo de um Delorean. No terceiro e último filme, lançado em 1990, retrocederam ao passado do Velho Oeste.


Como o “De Volta para o Futuro 3”, os novos gestores da empresa voltaram ao século passado! Aos tempos do finado governador Quércia! Aos tempos da DC, da DA, dos distritos regionais. É a volta ao passado do relacionamento distante com o poder concedente, da inércia de respostas para atendimento, dos empreendimentos que não conversavam com a operação.


Uma nova estrutura que já nasce velha, a semear um clima interno de desmotivação e competição pelo melhor lugar na fila do osso. Jogam fora conquistas de um modelo de gestão bem sucedido para voltar aos anos 1980. Pior, sem pessoal próprio e expulsando perto de 20% de seus profissionais com décadas de experiência!


Tudo em nome da “eficiência”, esse novo disfarce para a privatização ideologicamente dogmática. Sob o manto dessa “eficiência” alienígena a empresa será conduzida à degradação da qualidade dos serviços que justificará a entrega definitiva ao capital financeiro.


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