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Produção de chips no Brasil e a superação do complexo de vira-lata

ADÃO VILLAVERDE

RICARDO REIS

SÉRGIO BAMPI

SERGIO M. REZENDE


Os circuitos integrados (CI), também conhecidos por chips, são formados por conjuntos de circuitos eletrônicos fabricados em pequenas pastilhas de materiais semicondutores. Desde os primeiros dispositivos comerciais do início dos anos 1960 até hoje a tecnologia evoluiu vertiginosamente, com a contínua diminuição do tamanho dos elementos básicos, possibilitando a existência de uma enorme variedade deles, usados em telefones celulares, equipamentos eletrônicos domésticos, industriais, automóveis, tablets, computadores e tantos outros.


O Brasil tem apenas uma fábrica de chips, a CEITEC, empresa vinculada ao Ministério de CT&I, localizada em Porto Alegre, criada em 2008, no Governo Lula, teve suas instalações concluídas em 2010, iniciando a produção através dos processos menos complexos em 2012. Desde então projetou e produziu CIs de silício comerciais, com certificações internacionais para várias aplicações. Muitos desses projetos se originaram em demandas específicas do Governo, que posteriormente não comprou os produtos, frustrando o retorno de anos de investimentos. Mas mesmo sem as compras governamentais, em 2020, próxima de atingir o superavit nos anos seguintes, a empresa já tinha fabricado mais de 162 milhões de chips (http://www.ceitec-sa.com.br), vendidos inteiramente para o setor privado.


Contudo, apesar do pioneirismo, teve liquidação decretada em 2020, sob a justificativa de ser deficitária. Mas o processo foi sustado em 2022 pelo Tribunal de Contas da União, e agora sobrestado, fundamentalmente por falta de justificativas técnicas robustas e porque foram detectadas irregularidades nos seus procedimentos.


Recentemente, a nova Ministra de CT&I, Luciana Santos, deu entrevistas afirmando que irá revogar a liquidação da empresa e promover sua recuperação, seguindo recomendações da Comissão de Transição, orientada por um estudo da estratégia que o país terá no campo dos semicondutores. Suas declarações foram duramente criticadas por alguns veículos de comunicação, que tem como base argumentos equivocados e limitados sobre desenvolvimento tecnológico nacional e tamanho do chip, numa lógica meramente de montagem e empacotamento, de reprimarização e de extrativismo, do ponto de vista do modelo econômico-industrial.


Uma das críticas é que a tecnologia da fábrica seria antiga e ultrapassada. Mas o fato é que o parque litográfico da empresa tem capacidade comprovada para amplo uso hoje, sendo que a estrutura física do prédio a qualifica para operação com nível de precisão mais refinada ainda. E mesmo com a capacidade atual, alcançaria os mercados que abrangem infraestrutura de comunicações 5G, automação industrial, internet das coisas, setor automotivo, radares, tecnologia militar, saúde e medicina, agronegócio e comunicações ópticas. Cabe observar que em muitas aplicações de ponta são usados chips com tecnologias como a da CEITEC, que são mais robustas a falhas devido a efeitos de radiação.


Outro engano é fazer comparações com as grandes empresas do setor, como Intel, TSMC e Samsung, que fabricam processadores e memórias no estado da arte. O mercado de chips não se resume a estes nichos, e há vários tipos que não necessitam ter dimensões tão reduzidas quanto aquelas. Isso explica a existência de empresas menores que as gigantes, produzindo chips como os da CEITEC para diversas aplicações. Um bom exempo é a ON Semiconductors (http://www.onsemi.com), que possui fábricas semelhantes a nossa em vários países.


E ao contrário do que dizem os críticos, os investimentos públicos na CEITEC foram muito aquém do que um projeto desta envergadura requer, sejam nos equipamentos de fabricação ou mesmo na formação do corpo técnico, além da chamada curva de maturação necessária que teria que ser cumprida, que foi atropelada pela tentativa de liquidação. Incongruente com o que foram os investimentos e os tempos de retornos destas fábricas nos países do Pacífico do Leste, onde se concentram em torno de 85% da produção mundial. E em contraposição com os enormes subsídios públicos que USA e China projetam para o setor nos tempos atuais, na busca deste tipo de manufatura.


É bom relembrar, que desde que o ensino de pós-graduação foi institucionalizado no país, em 1968, foram formados centenas de milhares de mestres e doutores em todas as áreas de C&T, inclusive na engenharia eletrônica. Isto confere ao país plenas condições de superar o complexo de “vira-lata”, identificado por Nelson Rodrigues, e de forma ousada e consistente, enfrentar desafios que exigem conhecimento e recursos humanos qualificados, para mergulhar definitivamente no seleto grupo mundial de Nações que detêm expertise e dominam a produção de chips.


Adão Villaverde, Engenheiro e Professor da Escola Politécnica – PUCRS


Ricardo Reis, Professor Titular do Instituto de Informática – UFRGS


Sérgio Bampi, Professor Titular do Instituto de Informática – UFRGS


Sergio M. Rezende, Professor Emérito de Física – UFPE e ex- Ministro da Ciência e Tecnologia (2005 -2010)

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