A Engenharia a Serviço da Vida: Como a Técnica se Torna Liberdade quando Ouve o Povo
- Amaury Castro Monteiro Jr

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Amaury Monteiro Junior
Resumo
Este artigo contesta a visão tecnocrática que isola a Engenharia como centro do desenvolvimento. Fundamentado no materialismo dialético e no pensamento de Lenin, Stalin e Mao Tse-Tung, o texto argumenta que a Engenharia não é uma ciência por si só, mas um conjunto de conhecimentos que deve estar a serviço do planejamento estratégico do país. A técnica deve subordinar-se às demandas sociais, humanas e da saúde, assumindo seu papel na construção de uma soberania nacional autêntica através de uma reindustrialização solidária. O trabalho aborda a evolução histórica rumo ao modelo chinês de alta tecnologia e a integração indissociável da Arquitetura, Geociências e Agronomia sob o imperativo da sustentabilidade ambiental. Denuncia-se o fatiamento neoliberal de estatais como Petrobras, Eletrobras e Sabesp, defendendo que os conhecimentos técnicos só alcançam sua plenitude quando voltados ao bem-estar da classe trabalhadora e não à satisfação de acionistas em bolsas internacionais.

Introdução: A Engenharia no Seu Devido Lugar Histórico
É comum encontrarmos nos círculos acadêmicos a crença pan-tecnocrática de que a Engenharia é o eixo central do desenvolvimento. Contudo, uma análise fundamentada no materialismo histórico revela que a Engenharia não é o centro, mas a grande integradora e executora das demandas gestadas pelas ciências sociais, humanas e da saúde.
V.I. Lenin afirmava que a técnica só adquire sentido quando subordinada a um objetivo social superior; sem a diretriz política, o cálculo é um exercício vazio. Iosif Stalin reforçou que a técnica decide tudo quando os trabalhadores dominam a ciência para cumprir o plano econômico. No pensamento chinês de Mao Tse-Tung, o conceito de "Vermelho e Especialista" estabelece que a competência técnica é estéril se não estiver imbuída de consciência social. A Engenharia, portanto, não define o rumo; ela viabiliza o caminho traçado pelo projeto de sociedade.
A Vivência Brasileira: Do DNA Soberano ao Desmonte Neoliberal
No Brasil, os grandes saltos técnicos foram respostas a pressões populares. A campanha "O Petróleo é Nosso" fundou a Petrobras e forçou a integração das Geociências para a conquista da autossuficiência. Entretanto, com o aprofundamento do projeto neoliberal desde os anos Collor, a Petrobras tem sido fatiada e vendida aos poucos para investidores interessados apenas em lucros imediatistas.
Esse cenário foi drasticamente agravado pela operação Lava Jato e pelo golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff. Sob a máscara do combate à corrupção, desestruturou-se a engenharia nacional e a Petrobras foi afastada de sua missão social. Hoje, utilizamos tecnologia de ponta para localizar petróleo e alienamos esses campos para estrangeiros. Com o povo detendo apenas 50,26% do capital da empresa, as prioridades foram sequestradas para o retorno de acionistas, abandonando o motor do progresso nacional. Da mesma forma, a Embrapa deve resgatar seu foco na agroecologia e agricultura regenerativa, deixando de priorizar apenas insumos exportáveis que geram insegurança alimentar em nome do agronegócio predatório.
A Urgência da Reestatização: Eletrobras e Sabesp
A defesa da reestatização de empresas estratégicas como a Eletrobras e a Sabesp é urgente e central neste debate. A transposição para a iniciativa privada de empresas que fornecem produtos essenciais — como energia elétrica e saneamento básico — não pode estar atrelada à busca de lucros e à satisfação de ganhos por parte de acionistas nas bolsas de valores internacionais.
Quando a água e a luz tornam-se mercadorias, o conhecimento técnico é desviado para a redução de custos visando dividendos, excluindo áreas periféricas e rurais. A reestatização é o único caminho para que a engenharia de infraestrutura volte a ser guiada pela necessidade humana e não pelo valor da ação no mercado.
O Paradoxo Energético e a Reindustrialização Solidária
É um absurdo técnico que o Brasil jogue fora o equivalente ao fornecimento de uma usina de Belo Monte por não investir em técnicas de armazenamento de energia limpa. Por falta de um planejamento estratégico que priorize a autonomia, descarta-se energia solar e eólica excedente para dar preferência a termoelétricas caríssimas pagas a peso de ouro. Isso prova que não basta ter tecnologia (como a de geração limpa) se ela não estiver a serviço do povo brasileiro.
Nesse contexto, os conhecimentos da Engenharia devem estar integrados a um processo de reindustrialização solidária. A técnica deve atuar para que o desenvolvimento industrial esteja acoplado à geração de empregos e ao fortalecimento da economia popular, criando complexos industriais de saúde, energia e alimentos voltados para a autonomia nacional.
O Mito da Neutralidade e a Integração dos Saberes
É preciso combater o "Mito da Neutralidade Técnica". A Engenharia não é uma ciência por si só, mas trabalho humano aplicado que atua na síntese. Na saúde, o saneamento nasce da necessidade epidemiológica, tornando a Engenharia serva da Biologia. Nas ciências sociais, a construção de cidades responde a fluxos demográficos; o cálculo é o meio e a justiça social é o fim.
A Engenharia é um ecossistema indissociável que compreende a Arquitetura, as Geociências e a Agronomia. Inspirada na "Civilização Ecológica", a técnica deve permitir o desenvolvimento das forças produtivas em harmonia com os limites biofísicos do planeta. Os conhecimentos técnicos devem estar a serviço da transição energética e da adaptação climática como uma missão de Estado.
Conclusão: Consciência de Classe e o Fim da Soberba Tecnocrática
O modelo chinês contemporâneo demonstra que a técnica pode ser a força motriz de Novas Forças Produtivas de Qualidade. No Brasil, os exemplos do desmonte da Petrobras e da privatização da Eletrobras e Sabesp revelam a dimensão do distanciamento entre a técnica e a implementação de melhorias para o povo.
A mensagem final é contundente: a Engenharia não é o centro de tudo, nem a razão de existir do mundo moderno. Ela é um conjunto de conhecimentos técnicos que deve se submeter e ser protagonista de mudanças sob a égide de um planejamento estratégico estatal e planificado. O profissional deve abandonar a soberba tecnocrática para se tornar um formulador de políticas públicas.
Ao aceitarmos que a técnica é um meio para atingir a justiça social e a soberania, deixamos de ser meros calculistas a serviço do capital para nos tornarmos construtores da libertação brasileira. Daqui para frente, tudo o que produzimos é acumulação para a consciência popular; nada de sintetizar para reduzir, mas expandir para transformar.
Amaury Monteiro Junior é Engenheiro Civil e Mestre em Administração, com ênfase em Gestão Ambiental e Sustentabilidade
Referências Bibliográficas
CHIA, C. A revolução chinesa e o pensamento de Mao Tse-Tung. Pequim, 1968.
ENGELS, Friedrich. A dialética da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
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MARX, Karl. O Capital: Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
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SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Edusp, 2002.
STALIN, Iosif. A técnica decide tudo. Moscou: Edições do Estado, 1935.
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