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A mulher negra na engenharia

Por Odete dos Santos



Meu nome é Odete dos Santos, 64 anos, um filho de 17 anos, sou engenheira civil formada em 1986 e apesar de aposentada ainda trabalho, sou engenheira civil da Prefeitura de Guarulhos, na área da Saúde.


Hoje estou vice presidente do Conselho Deliberativo da EngD da qual sou sócia fundadora. Até 2020, eu nunca havia me identificado como negra, como preta.


Neste ano, me candidatei a vereadora, e foi então que me vi classificada como negra. Confesso que levei um susto, apesar dos cabelos crespos, ancas largas, nariz arredondado, características estas de negros.


Na adolescência descobri que minha bisavó por parte de mãe havia sido escrava, este fato me deixou pensativa por vários dias, pensava comigo: -Coitada, deve ter sofrido muito! Sofreu e deve ter sido em função deste sofrimento que a miscigenação aconteceu nesta parte da minha família. Minha mãe tinha o tom de pele claro, mas cabelos crespos.


Quando criança, frases como “cabelo de bombril”, “cabelo pichaim”, eram comuns ao me ofenderem. Este fato era recorrente. Talvez por isso, eu tenha levado a vida, sem pensar muito na minha cor.


Minha certidão de nascimento me classifica como parda. Eu reagia aos xingamentos na escola, sendo uma ótima aluna, minha vingança eram as boas notas que tirava.


Resolvi que seria Engenheira Civil, após me formar Técnica em Edificações. Não estudei em universidade pública.


Durante o dia trabalhava para sustentar a faculdade que fazia a noite. Seis anos de muita luta, muito estudo, eu não tinha tempo para pensar em minha cor.


Na faculdade mal havia mulheres, o que dirá negras, não me lembro de haver outra negra na engenharia civil. Mesmo quando o preconceito batia a minha porta, eu passava por cima.


Somente em 2020 me assumi negra, mas isso em nada mudou a minha vida profissional, o que mudou foi o respeito que passei a ter por companheiras negras, me envolvi mais em movimentos negros, passei a conhecer mais sobre o assunto.


A proposta da live, falando sobre o tema “A Mulher Negra na Engenharia”, me levou a reflexão sobre o assunto.


Somos muito poucas mulheres na engenharia, porém o Brasil, após seis anos de retrocesso, estamos voltando a ser o país igualitário que estávamos criando anteriormente.


Ser mulher dentro do universo da engenharia, significa ter que aprender a se impor frente aos homens, tanto no canteiro de obras como dentro dos escritórios e afins.


Os homens, às vezes, nem nos deixam nem terminar frases e colocações, completando nosso raciocínio, e nesse momento vale o nosso posicionamento em não permitir que isso aconteça, comum simples: “deixe eu completar meu raciocínio”.


Mulher no meio da engenharia ouve piadas, gracejos, sofre assédios, mas não creio ser mais ou menos do que outras mulheres em outras áreas de atuação, creio ser igual. O preconceito existe não apenas por ser negra, ser engenheira, ser médica, o preconceito existe por sermos mulheres! Mulher atuante no mercado competitivo de trabalho incomoda.


Julgo ser importante também que as engenheiras mulheres, negras, brancas, e ou demais etnias sejam classificadas pelo CREA, órgão que nos regula, a nível Federal, através de um censo, para conhecimento e divulgação destes dados, e enfim, sabermos quantas somos, e como somos.


Hoje somos 20% de engenheiras em todo país com relação ao universo masculino. Com esta pesquisa poderemos saber se realmente as mulheres mais jovens, recém formadas, estão atuando na área como Engenheiras, eu vejo muitas mulheres jovens, por exemplo, no Linkedin, mostrando fotos em obras, com capacetes, e EPIs, mas elas atuam na função de Engenheiras? Não sabemos! São registradas como engenheiras, ou são pessoas jurídicas?


Faltam-nos esses dados. Como o CREA reage a isso? Eu só tenho registro como engenheira civil na Prefeitura de Guarulhos e seis meses em uma pequena empresa.


A luta das mulheres no mercado de trabalho parece que avançara agora como novo governo que decretou que homens e mulheres na mesma função devem ter salários iguais.


A oferta de emprego para a mulher com certeza deve cair, ou seja, a política da inserção da mulher no mercado de trabalho tem que ir além da discussão sobre os salários.


Fico feliz em poder debater esse assunto, trazer a publico essa reflexão, e dizer as meninas, sejam elas brancas, negras, indígenas: Vocês podem tudo! Não permitam que tomem atitudes e ou façam falas por vocês. Sejam vocês donas da sua vida, do seu corpo, da sua mente! E lutem para serem reconhecidas e remuneradas, pelo que de fato são:- Engenheiras!


Odete dos Santos

Engenheira Civil


São Paulo 15.03.2023

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