A Revolução dos Engenheiros: A Estratégia do Irã para Virar Potência Tecnológica
- Miguel Manso
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Como o Irã usou a tradição Persa, a Engenharia Reversa e a Fuga de Cérebros para se tornar uma potência tecnológica Assimétrica
Por Miguel Manso
A assimetria tecnológica é um limitador de desenvolvimento soberano, de concorrência interna e externa e um impulsionador de hierarquias globais, onde o conhecimento técnico se traduz diretamente em prosperidade social e em poder político e econômico.
Longe dos holofotes, Teerã combinou técnicas ancestrais de sobrevivência no deserto com engenharia reversa de ponta para construir um programa tecnológico próprio. Mais do que mísseis e drones, o país apostou na formação de mentes para desafiar sanções e redefinir o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
O Irã, sob a pressão de décadas de sanções internacionais e tensões geopolíticas, transformou sua engenharia em uma ferramenta de Estado.
O país não apenas investiu na quantidade de engenheiros formados, mas criou um ecossistema de inovação assimétrica: enquanto o mundo esperava que as sanções paralisassem o país, a engenharia iraniana usou a necessidade como combustível para dominar setores como nanotecnologia, desenvolvimento de drones e infraestrutura crítica.
A engenharia histórica persa (como os Qanats e Badgirs) inspira, metaforicamente, uma cultura de soluções de baixo custo e alto impacto -6.
Contexto Histórico e Investimento Humano
A "Fábrica de Engenheiros": O Irã forma aproximadamente 233 mil engenheiros por ano, estando entre os cinco países que mais formam na área -2.
A engenharia no Irã é marcada por um forte contraste entre técnicas ancestrais de sustentabilidade e um desenvolvimento tecnológico moderno focado em setores estratégicos. O país possui uma das maiores populações de engenheiros do mundo, equivalente à dos EUA e com uma população muito menor, impulsionada por instituições renomadas como a Universidade de Teerã e a Universidade de Ciência e Tecnologia do Irã.
Principais Áreas de Destaque
Engenharia Civil e Urbana: O país executa projetos de grande escala, como a construção de Partis, uma "cidade do futuro" no desertp de Dasht-e Kavir. Planejada ao longo de uma década, a cidade utiliza infraestrutura moderna para combater o clima árido e acomodar o crescimento populacional.
Nanotecnologia e Biotecnologia: Em apenas duas décadas, o Irã tornou-se um expoente global em nanotecnologia, ocupando posições de destaque em rankings internacionais de produção científica.
Tecnologia Nuclear e Energia: O setor nuclear é um pilar central, com foco em tecnologia para fins civis, embora seja alvo de constante monitoramento internacional pela AIEA e tensões geopolíticas.
Engenharia de Defesa e Materiais: O país desenvolveu inovações específicas, como concreto ultra-resistente à prova de bombas, refletindo a prioridade dada à infraestrutura crítica.
Engenharia Histórica (Sustentabilidade): O Irã é famoso por soluções tradicionais de resfriamento passivo, como os Badgirs (torres de vento) de Yazd e os Qanats (sistemas de canais subterrâneos), que permitem a vida no deserto sem eletricidade.
Infraestrutura e Economia Digital: Recentemente, o Irã tem investido pesadamente em sua infraestrutura digital e em inteligência artificial, embora o setor sofra com os impactos de sanções e conflitos cibernéticos na região
O Pilar da Engenharia Reversa (O Modelo "Shahed")
Estudo de Caso: Os drones Shahed-136 como exemplo máximo dessa estratégia. Diferente do senso comum, o artigo mostrará que o Irã não apenas copiou tecnologia, mas aperfeiçoou uma doutrina de guerra.
Custo-Benefício: Um drone Shahed-136 custa entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, enquanto os mísseis usados para abatê-lo custam milhões -1. Isso ilustra a "engenharia assimétrica".
A Potência Científica "Invisível": Nanotecnologia e Meio Ambiente
O Ranking e os Números da Liderança Iraniana
De acordo com os dados do StatNano, o Irã ocupou a 4ª posição global em publicações de nanotecnologia. A seguir, os detalhes que comprovam essa posição:
É importante notar que, em 2024, o Irã registrou uma ligeira mudança em sua posição. O país publicou 10.860 artigos na base Web of Science, o que representou 4,2% da produção mundial e lhe garantiu a 6ª posição no ranking anual -6.
Essa pequena variação é comum em rankings científicos anuais, mas não diminui a trajetória consistente de crescimento e relevância do país na área.
O Ecossistema de Inovação
A posição de destaque do Irã não se limita à quantidade de artigos. Os dados mostram um ecossistema de inovação robusto e em expansão:
Infraestrutura Acadêmica: O país criou uma base sólida para a pesquisa, com 23 universidades oferecendo cursos de doutorado em áreas como nano-química, nano-física, nano-materiais e nano-medicina. Além disso, 66 instituições de ensino superior possuem programas de mestrado na área, formando continuamente novos pesquisadores -2-9.
Aplicação Industrial: A produção científica iraniana tem se traduzido em aplicações práticas. A distribuição setorial dos produtos de nanotecnologia do país é a seguinte:
Reconhecimento Internacional: O trabalho dos cientistas iranianos tem sido reconhecido globalmente. Em fevereiro de 2022, por exemplo, o Instituto Americano de Física publicou um artigo científico de pesquisadores iranianos sobre o uso de nanomateriais para o tratamento do câncer.
Inovação Sustentável: Detalhar como essa ciência está sendo aplicada para resolver problemas internos. Exemplos: desenvolvimento de nanofiltros para dessalinização da água em regiões desérticas e produção de pesticidas ecológicos -6. Essa abordagem ajuda a desconstruir a imagem puramente bélica e mostra um estado que investe em ciência para sua sobrevivência hídrica e agrícola.
Aplicações da Nanotecnologia Iraniana para Problemas Internos
A posição de destaque do Irã em nanotecnologia não se limita à produção acadêmica. O país tem direcionado esse conhecimento para resolver desafios críticos de sua infraestrutura e economia, especialmente nas áreas de recursos hídricos e agricultura.
Nanofiltros para Dessalinização em Regiões Desérticas
A tecnologia de nanofiltração (NF) representa uma das aplicações mais promissoras da nanotecnologia para o combate à crise hídrica que afeta grande parte do território iraniano.
Como funciona a nano-filtração: Os nano-filtros são membranas semi-permeáveis com poros de tamanho extremamente reduzido — aproximadamente 0,0001 mícron (ou 0,1 nanômetro) -6. Quando a água é pressurizada através dessas membranas, ocorre um processo altamente eficiente de separação:
Remoção de contaminantes: Entre 90% e 95% dos elementos contaminantes são eliminados, incluindo microrganismos, vírus, bactérias, partículas sólidas em suspensão, elementos coloidais e proteínas -6.
Dessalinização seletiva: As membranas NF conseguem separar soluções contendo sal da água purificada, mas com uma vantagem crucial — diferentemente da osmose reversa, a nano-filtração preserva íons de baixa massa, essenciais para a saúde humana, especialmente de crianças em desenvolvimento -6.
Remoção de metais pesados: A tecnologia também permite a eliminação de elementos nocivos como cobre, zinco, ferro e materiais orgânicos -6.
Aplicações estratégicas para o Irã:Considerando que o Irã possui vastas regiões desérticas e enfrenta estresse hídrico crônico, os nano-filtros podem ser empregados em:
Tratamento de águas superficiais e subterrâneas: Purificação de água de rios, poços e aquíferos para consumo humano e irrigação -6.
Remoção de flúor e outros elementos tóxicos: Em muitas regiões do Irã, as fontes de água contêm níveis excessivos de flúor ou outros elementos que a nano-filtração pode reduzir a patamares seguros -6.
Tratamento de efluentes industriais: A tecnologia permite a recuperação de água de processos industriais, reduzindo a pressão sobre os recursos hídricos naturais -6.
Produção de Pesticidas Ecológicos (Nanopesticidas Verdes)
A agricultura iraniana, essencial para a economia e segurança alimentar do país, também se beneficia das inovações nanotecnológicas. O desenvolvimento de nanopesticidas com ingredientes naturais representa uma "guinada verde" na proteção de cultivos -1.
O conceito de nanopesticida verde:Um pesticida pode ser considerado verdadeiramente "verde" quando três componentes principais são de origem natural e possuem uma cadeia de produção limpa -1:
Ingrediente ativo: A substância que combate a praga.
Polímero de encapsulamento: A estrutura que envolve e protege o ingrediente ativo.
Adjuvantes: Substâncias que auxiliam na formulação e aplicação.
Vantagens técnicas da nano-encapsulação:Diferentemente das formulações convencionais, onde as moléculas ficam "soltas" em uma calda, os nano-pesticidas utilizam estruturas em formato de cápsulas com tamanho inferior a 1000 nanômetros -1. Neste sistema:
O ingrediente ativo fica protegido dentro da cápsula.
A cápsula transporta o princípio ativo para o interior da planta de forma mais eficiente.
Há maior adesão à superfície das plantas e liberação controlada do produto
A Paradoxal "Fuga de Cérebos": Diáspora como Ponte de Conhecimento
A expressão "fuga de cérebos" carrega tradicionalmente uma conotação negativa — a perda irreparável de talentos que seus países de origem formaram e não conseguem reter.
No caso do Irã, porém, este fenômeno assume contornos paradoxais. O país que forma cerca de 233 mil engenheiros por ano e vê uma parcela significativa emigrar para o Canadá, Estados Unidos e Europa pode, na verdade, estar cultivando um ativo estratégico: uma diáspora altamente qualificada que atua como ponte invisível de transferência de conhecimento, capital e influência global.
A Dimensão do Fenômeno
A emigração de iranianos qualificados não é um fenômeno recente. Desde a Revolução de 1979, o país experimenta ondas sucessivas de saída de intelectuais, cientistas e engenheiros. Estudos acadêmicos apontam que, enquanto nas décadas de 1950-1980 os iranianos emigravam principalmente para se qualificar no exterior com a expectativa de retornar, o período pós-revolução consolidou um novo perfil de emigrante: profissionais altamente qualificados que respondem às demandas de um mercado globalizado, desenvolvendo uma "identidade nacional internacionalista" que lhes permite manter vínculos culturais com o Irã enquanto atuam profissionalmente no exterior -6.
Esta nova diáspora não rompe laços — ao contrário, os reinventa. E é exatamente este fenômeno que interessa à análise do desenvolvimento tecnológico iraniano.
A Diáspora como "Diplomacia do Código"
Um dos conceitos mais instigantes para compreender o papel da diáspora iraniana é o de "code diplomats" (diplomatas do código) ou "tech whisperers" (sussurradores de tecnologia) -4.
Trata-se de uma rede descentralizada e informal de profissionais da tecnologia que, de forma discreta e apolítica, movimentam conhecimento, capital e infraestrutura através das fronteiras, desafiando sanções e censura.
Como opera esta rede:
Mecanismo | Descrição | Exemplo Concreto |
Mentoria remota | Profissionais da diáspora orientam startups no Irã | OpenHopeHack no GitHub, conectando expatriados a jovens programadores -4 |
Eventos estruturados | Conferências e fóruns de conexão | iBRIDGES, evento anual que conecta profissionais no exterior a empreendedores no Irã -4 |
Retorno temporário | Especialistas que voltam para projetos específicos | 2.000 especialistas retornaram entre 2015-2022 para colaborar com centros científicos -4 |
Startups remotas | Empreendedores no exterior lançam empresas no Irã | 200 startups lançadas por iranianos no exterior -4 |
O Connect+ Forum, realizado em abril no Iran House of Innovation and Technology (iHiT), ilustra esta dinâmica. O evento facilitou a troca de conhecimento entre especialistas iranianos no exterior e líderes tecnológicos domésticos, resultando na colaboração de mais de 2.400 iranianos da diáspora com centros científicos e industriais dentro do país
Setores Estratégicos: Os Pilares da Resiliência
Siderurgia: Destaque Global
A indústria siderúrgica iraniana é, sem dúvida, o principal caso de sucesso industrial do país. Em janeiro de 2026, a produção de aço do Irã cresceu mais de 15% em relação ao ano anterior, alcançando 2,6 milhões de toneladas métricas -9. O país manteve sua posição como o 10º maior produtor de aço do mundo, segundo a World Steel Association -9.
A produção de tarugo de aço atingiu 13,9 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2025 -3. A produção de esponja de aço — insumo crítico para o setor — ultrapassou 18,1 milhões de toneladas em sete meses -3.
O setor é estratégico não apenas pelo volume, mas por sua integração com a economia doméstica: alimenta os setores de construção, infraestrutura, automotivo e de exportação -9. Autoridades afirmam que investimentos em modernização tecnológica e cadeias de suprimentos domésticas ajudaram a compensar o impacto das sanções -9.
Mineração e Metais: Crescimento Expressivo
O setor de mineração e metais apresenta números impressionantes:
Petroquímica: Pilar das Exportações Não-Petrolíferas
A indústria petroquímica iraniana produziu 35 milhões de toneladas de produtos em sete meses -3. O crescimento da produção foi de 6% no período -3. O setor é fundamental para a estratégia de diversificação das exportações, reduzindo a dependência da venda de petróleo bruto.
Indústria Automotiva: Recuperação Parcial
A produção de automóveis cresceu 23,4% no primeiro semestre de 2025, totalizando 468.699 veículos -3. Trata-se de uma recuperação significativa após anos de retração, embora o setor ainda opere muito abaixo de sua capacidade instalada histórica.
Iniciativas Governamentais: Reativação como Prioridade
O governo iraniano tem adotado uma estratégia dupla: expandir capacidade industrial enquanto reativa fábricas paralisadas.
Em fevereiro de 2026, o presidente Masoud Pezeshkian ordenou a inauguração simultânea de 868 novas unidades industriais e a reativação de 508 centros de produção em parques industriais de todo o país -1.
Nos últimos 18 meses, 1.325 unidades de pequeno, médio e grande porte foram inauguradas, com investimento total de 776 trilhões de Tomans e criação de mais de 80 mil empregos diretos -1.
O ministro da Indústria, Seyed Mohammad Atabak, destacou que as pequenas unidades industriais desempenham papel decisivo na criação de empregos e na distribuição equilibrada da atividade industrial pelas províncias -1.
Muitas das unidades reativadas haviam interrompido operações devido a restrições financeiras ou logísticas, sendo reintegradas ao ciclo produtivo por meio de apoio direcionado -1.
Os Gargalos Estruturais: A Outra Face da Indústria Iraniana
Apesar dos números impressionantes em setores estratégicos, a indústria iraniana enfrenta desafios profundos e crescentes.
1. Defasagem Tecnológica Crônica
O problema mais grave e estrutural é o atraso tecnológico. Uma grande parcela do maquinário industrial no Irã opera muito além de sua vida útil técnica. Globalmente, os ciclos de renovação de capital na indústria variam entre sete e dez anos, mas em muitas fábricas iranianas os equipamentos estão em uso há mais de duas décadas -10.
As consequências são múltiplas:
Menor eficiência produtiva
Maior consumo de energia
Qualidade declinante dos produtos
Perda de acesso a mercados competitivos
A desaceleração na renovação do capital fixo nos últimos anos agravou o problema, transformando o atraso tecnológico em uma restrição estrutural -10.
O acesso limitado a tecnologias avançadas — impulsionado por sanções internacionais, bem como por políticas cambiais e comerciais voláteis — também empurrou as indústrias iranianas para as margens da onda de transformação digital. Automação, manufatura inteligente, big data e inteligência artificial estão remodelando a produção global, mas muitos produtores domésticos permanecem excluídos dessas tendências
Potências Menores, Grandes Derrotas: Lições da História
A história militar do pós-Segunda Guerra Mundial está repleta de exemplos em que nações menos desenvolvidas tecnologicamente conseguiram não apenas resistir, mas efetivamente derrotar as maiores potências militares do planeta. Estes casos oferecem lições valiosas para compreender o momento atual do Irã.
Vietnã (1955-1975): O Arquétipo da Vitória Anti-Imperialista
O caso mais emblemático é, sem dúvida, a Guerra do Vietnã. Os Estados Unidos, então a maior potência econômica e militar do mundo, comprometeram mais de meio milhão de soldados e gastaram o equivalente a mais de US$ 950 bilhões (em valores atuais) no conflito -7.
A disparidade tecnológica era imensa: de um lado, a maior máquina de guerra da história, com superioridade aérea esmagadora, napalm, agente laranja e bombardeios estratégicos; do outro, um exército guerrilheiro e tropas regulares de um país recém-formado e empobrecido -2-7.
No entanto, em 30 de abril de 1975, as imagens de helicópteros americanos evacuando às pressas a embaixada em Saigon simbolizaram uma derrota humilhante -8. O saldo foi devastador: cerca de 58 mil soldados americanos mortos e mais de 1,1 milhão de vietnamitas (entre soldados e guerrilheiros) -8.
Por que o Vietnã venceu? As lições são múltiplas e ajudam a entender o caso iraniano:
Fator | Descrição |
Assimetria estratégica | Os vietnamitas escolhiam o momento e o local das batalhas, recuando para refúgios seguros no Laos e Camboja, onde as forças americanas eram proibidas de entrar -7 |
Guerra de desgaste | O objetivo não era vencer batalhas convencionais, mas infligir perdas suficientes para minar a vontade política americana |
Controle da narrativa | Enquanto a imprensa americana mostrava imagens cruas da guerra em tempo real ("a primeira guerra televisionada"), o Vietnã do Norte mantinha controle absoluto sobre a informação e a dissidência -7 |
Fratura moral interna |
O professor João Quartim de Moraes classifica a vitória vietnamita como "um triunfo da luta anti-imperialista", que reposicionou o campo socialista no tabuleiro geopolítico da Guerra Fria e produziu uma "verdadeira fratura moral e cultural nos EUA" -8.
Afeganistão (2001-2021): A Humilhação Americana Repetida
Em 2021, o mundo assistiu a uma cena que ecoava Saigon: tropas americanas retirando-se às pressas do Afeganistão, com o Talibã retomando o poder 20 anos após ter sido deposto. O conflito custou 240 mil vidas afegãs e cerca de 2.500 militares americanos -1.
O ex-diplomata britânico Alastair Crooke observa que os EUA "ganharam muitas batalhas, mas finalmente perderam a guerra" -1.
Mais uma vez, uma potência tecnologicamente superior foi derrotada por um inimigo que compreendia melhor a dinâmica local, a paciência estratégica e a guerra de desgaste.
O Irã Hoje: A Síntese das Lições Históricas
O que torna o caso iraniano particularmente relevante é que o país parece ter absorvido todas as lições destes conflitos anteriores e as adaptado à sua realidade.
A Estratégia Assimétrica Iraniana
De acordo com Alastair Crooke, o Irã está aplicando deliberadamente uma estratégia de guerra de desgaste que lembra o Vietnã:
"O que os iranianos estão usando é o arsenal de mísseis de 2012, 2013. Mísseis muito antigos e drones simples, cujo objetivo é esgotar ou forçar Israel e os Estados do Golfo a esgotarem suas capacidades de interceptação, o que estão conseguindo" -6.
Esta abordagem é profundamente racional:
Custo-benefício assimétrico: Cada drone iraniano, que custa alguns milhares de dólares, força o adversário a disparar mísseis interceptadores que valem milhões
Exaustão de recursos: Como observa Crooke, os Estados do Golfo já estão com sua capacidade de interceptação "quase nula" -6
Cegueira estratégica: O Irã tem usado drones e mísseis para "eliminar os olhos dos Estados Unidos", destruindo instalações de radar avaliadas em mais de um bilhão de dólares cada -6
O Fator Netanyahu: A Armadilha Política
Crooke revela um aspecto crucial da dinâmica atual: Benjamin Netanyahu teria efetivamente forçado Donald Trump a atacar o Irã. Em reunião em Mar-a-Lago, em dezembro de 2025, Netanyahu teria dito a Trump:
"A questão nuclear não é o problema. A primeira é o sistema de mísseis iraniano. Temos que destruí-lo... Se você não destruir o sistema de mísseis, não seremos capazes de penetrar essa proteção" -6.
E, num movimento de alta pressão política:
"Se não fizerem isso, lançaremos o primeiro ataque e queremos ver se vocês não se juntam a nós. É claro que vocês não têm escolha" -6.
Este episódio revela como a política doméstica americana e israelense se entrelaçam para produzir decisões de guerra que, do ponto de vista estritamente militar, podem ser desastrosas — ecoando as pressões que levaram os EUA ao Vietnã.
O Quadro Atual: O que Está em Jogo
Dimensão | Situação Atual | Implicação |
Capacidade militar iraniana | Mísseis antigos, drones simples, mas em grande quantidade | Guerra de exaustão está funcionando; Golfo sem capacidade de interceptação |
Defesas adversárias | Sistemas de radar bilionários destruídos | EUA e aliados estão "cegos" em amplas áreas |
Coesão interna iraniana | Resistência popular, preparação para guerra longa | Diferente do Vietnã do Sul, regime tem base social |
Vontade política ocidental | Objetivos mudam a cada hora, liderança errática | "Versão letal de 'A Gangue Que Não Sabia Atirar'" -6 |
Impacto regional | Golfo Pérsico deixou de ser seguro para negócios | Fuga de investimentos, data centers, turismo -6 |
As Semelhanças com o Vietnã
O professor Quartim de Moraes, ao analisar o Vietnã, poderia estar descrevendo o Irã atual quando fala em:
Disparidade de perdas justificada pelo "poder de destruição massiva" do adversário -8
Fratura moral e cultural no país agressor, com movimentos de oposição interna
Capacidade de resistir apesar da inferioridade tecnológica evidente
A diferença crucial é que o Irã, diferentemente do Vietnã do Norte, não depende apenas de paciência e sacrifício. O país investiu pesadamente em sua própria capacidade industrial e tecnológica — como vimos nas seções anteriores sobre engenharia, nanotecnologia e desenvolvimento de drones — para poder sustentar uma guerra de exaustão por tempo indeterminado.
O Irã no Contexto Histórico
O que o momento atual revela é que o Irã conseguiu sintetizar as lições de meio século de guerras assimétricas:
Lição Histórica | Aplicação Iraniana |
Vietnã: Guerra de desgaste e opinião pública | Drones baratos exaurem interceptadores caros; Ocidente sem vontade para guerra longa |
Afeganistão (URSS): "Armadilha de urso" | Irã preparado para conflito prolongado, com "enormes estoques de mísseis" -6 |
Afeganistão (EUA): Vitória militar não garante vitória política | EUA vencem batalhas, mas perdem a guerra estratégica |
Guerra do Yom Kippur: Surpresa tecnológica | Egito usou bombas d'água para destruir a Bar-Lev; Irã usa drones e mísseis para cegar radares |
"O mundo se surpreendeu com a capacidade militar iraniana, mas deveria ter aprendido com a história. Vietnã, Afeganistão e tantos outros conflitos ensinaram que potência tecnológica não é suficiente para vencer guerras assimétricas. O diferencial iraniano não está apenas nos mísseis ou drones — está na compreensão profunda de que a verdadeira batalha não é por território, mas por exaustão. Exaustão de recursos, exaustão de mísseis interceptadores, exaustão de vontade política. Enquanto Trump exige a rendição do exército iraniano e promete 'morte garantida', os drones sobrevoam livremente Doha e Dubai, os radares bilionários viram entulho, e a 5ª Frota americana se pergunta se o Golfo Pérsico ainda é um lugar seguro. O Irã não está tentando vencer a guerra no sentido tradicional — está tentando fazer com que a guerra não valha a pena ser vencida. E nisso, a história está do seu lado."
O Legado Ancestral como Metodologia
Conexão Histórica: A engenharia iraniana moderna é herdeira de uma cultura de resolver problemas complexos com recursos escassos e cultura milenar. Os Qanats (canais subterrâneos) e os Badgirs (torres de vento) são exemplos históricos de como a Pérsia dominou a engenharia civil e térmica muito antes da era industrial -6.
O Irã moderno aplica a mesma lógica de seus antepassados: diante de um ambiente hostil (seja o deserto, sejam as sanções), a engenharia é a ferramenta de sobrevivência e projeção de poder.
O Irã é uma potência tecnológica, e a Engenharia é o centro desse desenvolvimento, não uma potência ainda nos moldes tradicionais (indústria de consumo de massa), mas sim uma "potência tecnológica de resistência".
Sua força reside na capacidade de gerar conhecimento endogenamente, adaptar tecnologias estrangeiras com maestria (engenharia reversa) e aplicar esse conhecimento para garantir a autossuficiência militar e civil, consolidando-se como um ator indispensável na geopolítica global.
Enquanto isso, Trump aumenta seu isolamento interno e externo, ameaça aliados e os vê abandonar a aliança, alega que tem o controle da situação, mas o povo americano e o mundo percebem sua submissão e atrelamento a Israel, seu passado de pedofilia e abusos, usados como chantagem para submeter o interesse americano a Netanyahu, e vê crescer a rejeição à guerra e a derrota do frágil tiranete, às custas de seu povo, que acreditou na promessa e ilusão do MAGA e que teme a herança que receberá de potência desgastada, desmoralizada e crescentemente isolada.
Miguel Manso é Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia, pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois.





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