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“Adiar o fim do mundo não significa esperar por um futuro melhor, mas construir as condições para que ele aconteça”

  • há 18 horas
  • 6 min de leitura

Roberto Freire, presidente da Fisenge, abriu o 14º Congresso Nacional dos Sindicatos dos Engenheiros a partir da frase-título de Ailton Krenak. A EngD marcou presença.


Roberto Freire, presidente da Fisenge, na abertura do 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (Consenge), na quarta-feira (26), em Belo Horizonte. Foto: Fisenge
Roberto Freire, presidente da Fisenge, na abertura do 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (Consenge), na quarta-feira (26), em Belo Horizonte. Foto: Fisenge

Costumo ser um pouco pessimista nas análises de conjuntura, mas hoje quero lembrar algumas ideias de Ailton Krenak para adiar o fim do mundo: “nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. (...) então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. e a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história”. E posso afirmar com toda a certeza de que todos e todas nós aqui na FISENGE contamos, a cada período, mais e mais histórias. Fomos capazes de fabular histórias, imaginar outros mundos possíveis. Mais do que contar histórias, fomos capazes de agir.


Apesar do mundo distópico que vivemos com pandemia, privatizações, o desgoverno Bolsonaro, as reformas trabalhista e previdenciária, os ataques do mercado financeiro, não tergiversamos. Não recuamos um só passo em nosso posicionamento político e fomos firmes na defesa da engenharia, da democracia e da soberania nacional em momentos que muitos recuaram e se aliaram a quem não prestava.

 

Tivemos a coragem de apresentar uma candidatura à Presidência do Confea, mesmo com todas as dificuldades e espalhamos ideias e sonhos por esse país com a proposta do programa Mais Engenharia como política de Estado que prevê a valorização e a contratação de engenheiros e a implementação e qualificação de infraestrutura para diversos municípios do país. Denunciamos os desmandos e as arbitrariedades no Sistema.

 

Tivemos a coragem de formular o Projeto de Lei “Engenheiro, sim, Analista, Não” e fazer com que avançasse na Câmara para criarmos um marco legal de valorização profissional nesse país, reunindo mais de 30 mil engenheiros num abaixo-assinado a favor do projeto. Tivemos a coragem de defender a democracia quando as instituições estavam em ruínas. Tivemos a coragem de denunciar os ataques à nossa soberania nacional.

 

Nesses dois mandatos à frente da presidência da Fisenge, há uma história que fica para adiarmos o fim do mundo: a história de quem luta. E nós lutamos. Lutamos a boa luta e honramos a história de lutadores como Rubens Paiva. Celebramos os 10 anos da instalação do busto de Rubens Paiva com uma ocupação popular, política e artística na praça onde ficava o centro de torturas e horrores da ditadura civil-militar, o DOI-CODI. Em tempos de manifestações pelo retorno à ditadura, nós tivemos a coragem de afirmar: DITADURA NUNCA MAIS!

 

Nesses mandatos, comemoramos os 15 anos da Diretoria da Mulher, os 10 anos da Engenheira Eugênia e os 15 anos do Coletivo de Mulheres da Fisenge. A organização das mulheres da Fisenge se expressa nesse Consenge com a participação histórica de cerca de 40% de mulheres nas delegações. As mulheres estão atuando nas negociações coletivas, disputando espaços de poder e propondo políticas públicas fundamentais. Nessa noite, também celebramos o Coletivo de Mulheres da Fisenge.

 

Sofremos um golpe com a Reforma Trabalhista que promove a desestruturação e o desfinanciamento dos sindicatos e a Fisenge demonstrou a capacidade de organização dos trabalhadores em assembleias do setor elétrico, CPRM, CONAB, conquistando direitos fundamentais. Na negociação coletiva mais recente da CONAB, quase não tivemos cartas de oposição pela confiança dos trabalhadores em nossa luta.

 

Passamos a contar nossas histórias no nosso EngeCast, o podcast da Engenharia com entrevistas com lideranças, profissionais e movimentos sociais. Criamos até a série de YouTube “A vida como ela é… na engenharia”.

 

Reafirmamos a democracia com a participação efetiva da Fisenge nas conferências nacionais, como a Conferência das Cidades e estamos construindo e lutando para realizarmos a 1a Conferência Nacional da Engenharia.

 

Ainda nos equilibramos entre os escombros do desgoverno Bolsonaro que deixou marcas na economia, na sociedade, na cultura e na engenharia. A Engenharia Nacional ainda não se recuperou com os ataques da Operação Lava Jato que paralisaram obras, fecharam portos, acabaram com a política de conteúdo local e promoveram o desemprego de engenheiros e o fechamento de empresas nacionais. O Brasil começou a voltar com a eleição de um presidente trabalhador, Luiz Inácio Lula da Silva, mas ainda temos um duro caminho a percorrer. Como diz a canção de Elis Regina, ainda há perigo na esquina. Há quem defenda como projeto a privatização da Petrobras e precisamos retomar o slogan: “O petróleo é nosso” e ampliar para “A Petrobras é nossa” e defenderemos a nossa empresa PÚBLICA E DO POVO. Assim como defendemos a reestatização da Eletrobras.

 

Defendemos, ainda, o fim da escala 6x1 e reivindicamos o direito ao tempo. Tempo de lazer, tempo de compartilhar as responsabilidades familiares e o cuidado, tempo de viver. Defendemos a vida!

 

No campo do trabalho, promovemos a discussão sobre o cuidado com a saúde mental e o fim dos assédios. Defendemos um ambiente de trabalho saudável, seguro e feliz.

 

Em 2026, temos o marco dos 60 anos do Salário Mínimo Profissional, idealizado pelo engenheiro Rubens Paiva, torturado e assassinado pela ditadura civil-militar e apresentado pelo então deputado Almino Affonso. Inclusive, vamos lançar neste sábado, o documentário da Fisenge sobre os 60 anos do Salário Mínimo Profissional e a nossa luta pela indexação de um índice econômico de reajuste salarial. Não é possível que a engenharia, uma categoria fundamental para o desenvolvimento social, não tenha reajuste de seu piso. Deixo aqui esse desafio para a próxima diretoria porque a Fisenge é um elemento central na luta parlamentar sem se render a negociatas.

 

Já vivemos os tempos da emergência dos movimentos sociais no pós-Constituinte e vivemos essa mesma emergência pós-governo Bolsonaro. Precisamos assumir a defesa das nossas florestas, matas, rios, mares, fauna e flora como parte inegociável da defesa da vida. O futuro depende da nossa luta em defesa do meio ambiente e nós, engenheiros, agrônomos e geocientistas, temos a capacidade de gerar uma contribuição para uma agenda de enfrentamento à emergência climática junto com os movimentos sociais, os povos ribeirinhos, indígenas, quilombolas. E este é um dos temas desse Consenge e vamos sair com uma agenda robusta de propostas.

 

Vivemos, ainda, os desafios éticos e os conflitos da inteligência artificial no mundo do trabalho. Não negamos a tecnologia, mas questionamos o seu uso e os seus objetivos. O que vemos é o uso indiscriminado de inteligência artificial sem um compromisso ético e até mesmo a substituição de mão de obra trabalhadora por meios tecnológicos, o que fere a responsabilidade técnica e social. Além disso, a inteligência artificial pode desestabilizar a democracia como vimos em algumas eleições. Defendemos a regulação social e econômica da inteligência artificial e das plataformas digitais. A internet não pode ser terra sem lei.

 

No contexto internacional, o Brasil sofre ataques com os tarifaços do governo de Donald Trump e retornamos à luta contra o imperialismo estadunidense que atinge as nossas empresas nacionais e a nossa engenharia. E precisamos reafirmar que o Brasil não pode ser mero exportador de commodities, entregando seus recursos para os países e a exploração de terras raras nos impõe ainda mais desafios. A nossa soberania é inegociável.

 

No campo sindical, precisamos ter a coragem de apresentar e pressionar por uma nova política sindical que promova o fortalecimento dos sindicatos. Defendemos a volta da ultratividade, a homologação nos sindicatos e a cobrança de uma taxa negocial. A negociação coletiva é o coração dos nossos sindicatos e o esteio da luta de classes. Chega de ver nossos engenheiros e nossas engenheiras desvalorizados. Chega de concursos públicos com remunerações abaixo do piso. Chega de empresas nacionais fechadas. Chega de precarização das condições de trabalho na engenharia, na agronomia e nas geociências. Uma engenharia valorizada significa um país com uma economia pulsante e com desenvolvimento social.

 

Meus amigos, minhas amigas, companheiros e companheiras, o fim do mundo nunca esteve tão próximo e a cada minuto se aproxima, mas há ideias que podem constituir ondas revolucionárias. Há ideias que podem fazer esse país tremer. Há ideias para adiarmos o fim do mundo. E para essas ideias vingarem, precisaremos de todos e todas, nas ruas, no parlamento, nos movimentos sociais, nos sindicatos. Mais do que nunca, precisamos afirmar a política. E, nessa noite, eu digo a vocês que o tema desse congresso A Engenharia e a Defesa da Soberania Nacional deve ser o norte para a agenda de um projeto de nação. Para contrapor a ausência mencionada por Ailton Krenak, eu digo: afirmemos a nossa presença, que é nas ruas. Muito obrigado.


 

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