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Amaury Monteiro Junior: 1º de Abril de 1964 – Uma data para não ser esquecida



Por uma coincidência histórica eu e minha família sabíamos o que estava sendo preparado e aconteceria no Brasil naquele ano de 1964, o golpe militar, que jogaria a todos nós numa profunda escuridão por longos 21 anos. Não estávamos preparados e nem tínhamos consciência de que era preciso resistir (Vide capítulo no livro “60 anos do Golpe – Gerações em Luta”, idealizado e coordenado pelo companheiro Francisco Celso Calmon que será lançado no próximo dia 01 de abril de 2024 e do qual eu sou um dos seus 66 articulistas.)

 

As consequências daquele golpe Civil-Militar logo se fizeram sentir quando pesquisadores, professores e alunos das nossas Universidades, parlamentares, jornalistas, patriotas... foram perseguidos, cassados, presos, torturados,... e para dar continuidade ao desenvolvimento de suas pesquisas, seus trabalhos acadêmicos ou de sobrevivência e a manutenção da integridade física própria e de suas famílias tiveram que sair às pressas do país e, do dia para a noite viveram as grandes dificuldades de reiniciar suas vidas no exílio.

 

Nomes extremamente importantes, que ajudavam a formar novas gerações, das ciências, das artes, da literatura, do conhecimento humano, da organização dos trabalhadores, da política... foram alijados do nosso convívio já nesse primeiro momento. Mais tarde, um pouco, institucionalizou-se os sequestros, as torturas, os apagamentos sumários e a eliminação de pessoas sem que rastros fossem deixados de sua existência a não ser entre seus familiares, companheiros, companheiras e em suas obras cantadas em conto e verso através das gerações.

 

A longa noite do terror e do ódio à inteligência, da negação ao direito de sonhar e lutar pelo desenvolvimento humano e da civilização foram calados à bala e na porrada dos subterrâneos do regime excluindo da face da terra muitos jovens idealistas que ousavam sonhar com um Brasil mais justo e igualitário, ou até mesmo que ousavam levantar a voz para reivindicar direitos e deveres básicos do cidadão brasileiro.

 

Essa longa escuridão levou muitas famílias a chorarem por seus parentes mortos e desaparecidos durante todo esse período, o Estado brasileiro deve a elas uma resposta definitiva e o direito a que possam ter o direito de encerrar esse período de incertezas e luto. Para isso é urgente reinstalar a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, dar a ela os meios e a garantia de que poderá exercer seu trabalho de forma firme e com a garantia de acesso a todos os registros importantes que permitam a elucidação definitiva das atrocidades cometidas no período e que iníciem os processos crime de aplicação da Justiça contra todos os torturadores, e agentes que atuavam na época e que praticaram crimes contra os direitos básicos do ser humano que perduram até hoje, 60 anos após terem sido cometidos.

 

Mas só isso não basta, já é um enorme avanço. Temos que tratar de forma firme e decidida a questão FORÇAS ARMADAS brasileiras, onde ainda se ensinam “antigas lições” em seus cursos de formação, exaltam os comportamentos de violadores de Direitos Humanos, praticam diuturnamente em suas entranhas conspirações, planejam golpes contra o Estado Democrático de Direito e tiram proveito das lições, provenientes da impunidade, aprendidas nos anos de Chumbo e continuam a tutelar o Estado brasileiro, comportando-se como se fossem o quarto poder da República.

 

Nós também somos os responsáveis pela perpetuação disso e até pelo retorno no período 2019 a 2022 dessa turma ao poder central da República, período em que Universidades, povos originários, Meio Ambiente, Educação Básica, Cultura, Ciências ... voltaram a ser agredidas diuturnamente e deixaram além de toda a destruição do Estado brasileiro, dos direitos de trabalhados, da cultura do ódio, ..., um saldo macabro de 700.000 brasileiros mortos de forma proposital e direcionada.

 

A repetição do período anterior nesse novo momento, por si só deveria servir de alerta para que o novo governo eleito a duras penas, comprometido com a Democracia Política trabalhasse para reverter todo esse processo e não se acovardasse diante dos desafios impostos e das feridas abertas nesses 60 anos, afinal enquanto não se der o tratamento adequado através de uma verdadeira Justiça de Transição com abrangência dos dois períodos de 1964 a 1985 e de 2019 ao início de 2023, esse país não respirará os ares da Democracia Política, da Democracia Social e da Democracia Econômica, já que estará conduzindo o nosso desenvolvimento de forma medrosa e sem coragem para enfrentar o “quarto poder” da República e até valida-lo na prática.

 

Esse deve ser um recado ao nosso companheiro Presidente: passar pano sobre esse longo período ou só tratar do passado recente esquecendo-se do passado não resolvido o colocara sempre sob o fio da navalha golpista manipulada por Forças Armadas e por esse Congresso retrógrado e atrasado.

 

Até quando? Lembre-se, principalmente você companheiro presidente Lula, nós não somos da mesma laia dele, estamos de passagem e se não enfrentarmos as questões do modo como devem ser tratadas o povo brasileiro será vítima desse “descaso justificado” de agora no curto prazo.

 

Apesar do mundo estar mais competitivo e agressivo, deixar de tratar questões relacionadas ao desenvolvimento de nossa gente, ao incentivo do desenvolvimento das tecnologias, do aprofundamento das questões humanas, ao posicionamento correto de nosso país no rol das nações desenvolvidas, conformando-se com o papel de produtores de commodities e consumidores de produtos industrializados por terceiros não nos levará a lugar algum e não deveria estar na nossa agenda, o resultado palpável, já sentido, é o de aumentar a fome e a miséria para a nossa gente.

 

Não há como deixar de fazer um paralelo sobre os acontecimentos de ontem (1964-1985) e os de quase agora (2019-2022). Devemos pensar para a frente e para isso temos que resolver as questões do passado que insistem em nos assombrar e que estão interligadas ao nosso futuro.

 

Para construir um novo Brasil mais justo e igualitário é importante resolver esse passado, enfrentá-lo de frente para que nunca mais volte a nos assombrar e impedir o planejamento do nosso futuro.

 

A luta continua!

Ditadura e Tortura Nunca Mais!

Por um país desenvolvido, igualitário e justo, com muita democracia!

 

* Amaury Monteiro Junior, engenheiro, é presidente do Conselho Deliberativo da EngD

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