Educação e engenharia: projetando o futuro do Brasil a partir da sala de aula
- Luís Kolle
- há 2 horas
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por Luis Kolle *

O Dia Nacional da Educação, comemorado em 28 de abril, não é apenas uma marca simbólica no calendário. Ele nos provoca a olhar, com a seriedade que o tema merece, para o alicerce de qualquer projeto de país: a forma como educamos nossas crianças, jovens e adultos – na escola, na família e na sociedade. A educação escolar, social e familiar é a base sobre a qual se constroem valores, cidadania, convivência harmônica e a própria capacidade do Brasil de decidir seu destino. É também o momento de reforçar uma ideia simples, mas frequentemente negligenciada: educação é direito de todos e dever do Estado, não um privilégio ou um favor.
A data está ligada a um compromisso global. Em 2000, durante o Fórum Mundial de Educação, líderes de diversos países, incluindo o Brasil, assinaram a Declaração de Dacar, assumindo a responsabilidade de garantir melhorias concretas no ensino. Desde então, o Dia Nacional da Educação se consolidou como um convite à reflexão sobre como avançamos na qualidade da educação, na valorização de professores, no combate à evasão escolar e na construção de um sistema capaz de acolher e desenvolver cada estudante.
Quando aproximamos essa reflexão da engenharia, tudo ganha contornos ainda mais nítidos. Não existe engenharia forte em um país com educação frágil. O ensino de engenharia depende diretamente da qualidade da educação básica, da capacidade de formar alunos em matemática, ciências, leitura, escrita, pensamento crítico e resolução de problemas. O futuro engenheiro começa a ser formado muito antes de entrar em uma faculdade, na escola pública ou privada do bairro, nas conversas com a família, nos estímulos da comunidade onde vive. Se esses pilares são frágeis, a formação superior se transforma num esforço quase heroico de compensar desigualdades.
Nas últimas décadas, o Brasil avançou em debates sobre qualidade da educação, com a implementação da Base Nacional Comum Curricular, a expansão do acesso ao ensino superior e o fortalecimento de mecanismos de avaliação e regulação de cursos. Na engenharia, em particular, esse movimento ganhou um aliado estratégico: a ABENGE – Associação Brasileira de Educação em Engenharia, que tem desempenhado papel fundamental ao articular escolas de engenharia, propor diretrizes, debater currículos, incentivar inovação pedagógica, aproximar a formação acadêmica das demandas reais da sociedade e do mercado de trabalho. A ABENGE ajuda a manter viva a pergunta que deveria orientar qualquer curso de engenharia: que tipo de profissional o Brasil precisa formar para enfrentar seus desafios mais urgentes em infraestrutura, tecnologia, indústria, energia, mobilidade, saneamento e sustentabilidade?
Ao lado disso, a crescente articulação de entidades como a Engenharia pela Democracia reforça um ponto essencial: educação e engenharia não são neutras. Elas carregam valores, escolhas, projetos de sociedade. Defender uma educação de qualidade, laica, inclusiva, crítica e comprometida com a redução de desigualdades é, também, defender uma engenharia a serviço do interesse público, da transparência, da ética e da democracia. Uma engenharia que, ao projetar obras, sistemas e tecnologias, leva em conta quem se beneficia, quem fica de fora e quais impactos sociais e ambientais cada decisão produz.
Esse diálogo entre educação, engenharia e democracia ganha um marco muito especial no grande evento que se anuncia para este ano: a 1ª Conferência Nacional de Engenharia, organizada pelo Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, com apoio decisivo da Engenharia pela Democracia. Trata-se de uma oportunidade histórica para discutir, em nível nacional, o papel estratégico da engenharia no desenvolvimento do país, as lacunas na formação profissional, a relação entre universidades e setor produtivo, a necessidade de fomentar inovação e empreendedorismo de base tecnológica, e, sobretudo, o compromisso da engenharia com um projeto de país mais justo, sustentável e democrático.
Essa conferência não nasce do nada. Ela é resultado de um contexto em que leis, normas e instâncias de fiscalização vêm se sofisticando e exigindo mais responsabilidade técnica e social dos engenheiros. O exercício da engenharia no Brasil passa por um sistema regulado, com CONFEA/CREA, normas técnicas da ABNT, legislações setoriais nas áreas de trabalho, meio ambiente, infraestrutura, energia, saneamento, contratos públicos e privados. A atuação da fiscalização – tanto educacional, via MEC e órgãos de avaliação, quanto profissional, via conselhos e agências reguladoras – pressiona por cursos mais consistentes, práticas mais responsáveis e profissionais mais bem preparados para lidar com riscos, impactos e responsabilidades.
Nesse cenário, o ensino de engenharia precisa ir além das fórmulas e dos cálculos. É preciso formar engenheiros capazes de dialogar com marcos legais e regulatórios, entender a importância da saúde e segurança no trabalho, respeitar normas ambientais, dominar conceitos de gestão de riscos, compreender políticas públicas e reconhecer que cada decisão técnica tem um componente ético e político. Não basta saber dimensionar uma estrutura; é preciso entender para quem essa estrutura serve, que território ela transforma, que vidas serão impactadas por ela. Educação em engenharia, hoje, significa conectar laboratório, canteiro de obras, fábrica, sala de reunião e espaço público de debate.
O Dia Nacional da Educação, nessa perspectiva, não é apenas um lembrete da importância da escola. É um chamado para pensar a educação como a grande obra coletiva capaz de sustentar a engenharia que o Brasil precisa. Combater a evasão escolar é abrir caminho para que mais jovens – especialmente os das periferias, do interior, das comunidades rurais, quilombolas e indígenas – possam acessar cursos de engenharia e trazer novas visões para a profissão. Valorizar professores é reconhecer que não existe pesquisa de ponta, grande obra ou inovação tecnológica sem alguém que, lá atrás, ensinou o básico com dedicação. Investir em educação é construir o terreno firme sobre o qual a engenharia pode erguer pontes, usinas, hospitais, redes de saneamento, sistemas digitais e soluções para os desafios contemporâneos.
Ao apoiar a 1ª Conferência Nacional de Engenharia, a Engenharia pela Democracia sinaliza algo muito importante: o futuro da engenharia brasileira passa, necessariamente, pela defesa de uma educação de qualidade para todos, pela articulação com políticas públicas e pela participação ativa na construção de um projeto de país que não sacrifique pessoas, territórios e direitos em nome de resultados imediatos. Em outras palavras, passam por uma visão de engenharia que enxerga a educação não como etapa burocrática, mas como coração da transformação.
Neste 28 de abril, ao celebrar o Dia Nacional da Educação, vale afirmar sem rodeios: a educação é a maior infraestrutura que o Brasil precisa construir e manter. Sem ela, nenhuma reforma, nenhum plano, nenhuma conferência se sustenta. Com ela, a engenharia pode cumprir plenamente sua vocação de desenhar, com técnica e responsabilidade, o futuro que a sociedade brasileira merece.
*Luís Kolle é Engenheiro com 28 anos de experiência em mobilidade urbana sobre trilhos, presidente da AEAMESP, Diretor para o Estado de São Paulo da Diretoria Regional Sudeste da EngD.
As matérias assinadas não representam necessariamente a opinião da EngD





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