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Enfrentar a crise climática exige enfrentar a crise habitacional

  • há 2 horas
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  • Intervenções urbanas, capazes de reduzir riscos e proteger populações vulneráveis, seguem subfinanciadas

  • Ou os recursos serão empregados na prevenção ou então os destinaremos à reconstrução após os desastres


A possibilidade de um novo Super El Niño no segundo semestre de 2026 coloca mais uma vez o país em alerta. Há risco de secas severas no Norte e Nordeste e de chuvas excessivas e inundações no Sul. Esses eventos extremos vão encontrar centros urbanos pouco preparados e vão os levar a discutir as importantes lacunas na adaptação e na gestão de riscos e desastres nos municípios brasileiros. Mas será que a questão da moradia vai fazer parte da discussão?


Os impactos das mudanças climáticas recaem de forma desproporcional sobre quem já enfrenta insegurança habitacional, especialmente em assentamentos informais e áreas urbanas mais vulneráveis —e o Brasil ilustra bem esse quadro. Mais de 16 milhões de pessoas vivem em favelas e comunidades no país, muitas vezes em áreas de alta exposição a riscos climáticos. As populações mais afetadas pelos impactos climáticos são também aquelas que, a cada nova ocorrência, ficam ainda mais expostas, reforçando um ciclo de vulnerabilização que tem origem na falta de acesso a direitos básicos.


Para a iniciativa Re.Habita, grupo que reúne WRI Brasil, ONU-Habitat Brasil, TETO Brasil, Habitat para a Humanidade Brasil e Fundação Tide Setubal, o acesso à moradia digna como direito humano é um pressuposto para a resiliência e a justiça climática.


A moradia digna é aqui compreendida como o acesso à terra urbanizada, segura e servida de infraestrutura, com condições para o exercício da cidadania.


Em maio último, essa discussão foi tema do 13º Fórum Urbano Mundial (WUF13), organizado pela ONU-Habitat em Baku, no Azerbaijão. O documento final do evento reafirmou que o acesso à moradia deve ser um pilar das estratégias climáticas nacionais e convocou governos, bancos e setor privado a transformarem o financiamento habitacional, contribuindo para ampliar a disponibilidade de recursos para diferentes abordagens. Em contraste, nos fóruns climáticos globais, a habitação ainda aparece de forma limitada. Cabe perguntar o porquê, já que essa é uma questão central para a redução de desastres nas cidades.


À medida que a intensificação da crise climática pressiona por investimentos em adaptação, torna-se mais evidente a necessidade de coordenar as agendas de clima e moradia. Isso significa reconhecer que urbanização de favelas, acesso a infraestruturas, melhorias habitacionais e regularização fundiária também são abordagens de adaptação. Essas abordagens exigem recursos compatíveis com a dimensão do problema e coordenação profunda entre políticas públicas e fontes de financiamento.


A maior parte do financiamento climático continua direcionada a setores tradicionalmente associados à agenda ambiental, como a transição energética e a indústria verde, enquanto intervenções habitacionais e urbanas, capazes de reduzir riscos, proteger populações vulneráveis e fortalecer a resiliência dos territórios, permanecem subfinanciadas.


Entre 2024 e 2026, os recursos para adaptação no Fundo Clima passaram de cerca de R$ 13,5 bilhões para R$ 27,5 bilhões. Ainda assim, apenas R$ 3 bilhões foram destinados ao desenvolvimento urbano sustentável, dos quais R$ 2 bilhões para infraestrutura. Não há informações sobre quanto foi destinado especificamente à moradia.


Cada real investido hoje em moradia adequada, urbanização integrada e infraestrutura resiliente reduz perdas humanas, sociais e econômicas no futuro. Diante da crise climática, a escolha que se coloca não é se destinaremos recursos à moradia —é se eles serão empregados na reconstrução após os desastres ou na prevenção de seus impactos.


*Autores:

Fabiana Tock, Coordenadora de Cidades da Fundação Tide Setubal

Camila Jordan, Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil

Rayne Ferretti Moraes, Chefe do escritório do Brasil da ONU-Habitat Brasil

Henrique Evers, Gerente de Desenvolvimento Urbano da WRI Brasil

Raquel Ludermir, Gerente de Incidência Política da Habitat para a Humanidade Brasil


Publicado originalmente na secção TENDÊNCIAS / DEBATES da Folha de S.Paulo, edição impressa de 27/07/2026


As matérias assinadas não representam necessariamente a opinião da EngD.


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