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Mudanças climáticas deixam de ser cenário futuro e passam a redefinir o planejamento das cidades brasileiras

Nova Nota Técnica do CEMADEN - Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais - reforça a urgência de integrar adaptação climática, gestão territorial e infraestrutura resiliente nas políticas urbanas


por Ivan Carlos Maglio *

A recente Nota Técnica do CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais - traz um alerta inequívoco: os eventos climáticos extremos no Brasil deixaram de ser excepcionais e passaram a configurar uma nova condição estrutural do território nacional. Secas prolongadas, ondas de calor, incêndios florestais e crises hídricas já afetam simultaneamente diferentes regiões do país, com impactos diretos sobre a economia, a saúde pública, a biodiversidade e a infraestrutura urbana.


O documento demonstra que os episódios recentes de 2023 e 2024 podem representar os eventos de seca mais severos já registrados no Brasil, superando marcos históricos anteriores. Amazônia, Pantanal, Cerrado, Nordeste e Sudeste sofreram redução crítica dos níveis dos rios, agravamento de incêndios e impactos sobre abastecimento, agricultura e geração de energia.


A principal contribuição da Nota Técnica é reconhecer que os chamados “eventos compostos” — seca extrema associada a temperaturas elevadas e incêndios — tendem a se tornar mais frequentes em razão das mudanças climáticas. Isso exige revisão profunda das políticas de desenvolvimento urbano e regional.


As cidades brasileiras continuam sendo planejadas, em grande medida, a partir de parâmetros climáticos e infraestruturais do passado. Sistemas de drenagem, ocupação do solo, expansão urbana e grandes processos de adensamento frequentemente desconsideram cenários futuros de risco climático. Em muitas situações, amplia-se a impermeabilização do solo, reduz-se a cobertura vegetal e intensificam-se ilhas de calor justamente em áreas já vulneráveis.


São Paulo exemplifica esse dilema. A ampliação recente das áreas de adensamento e verticalização associadas ao transporte coletivo ocorreu sem a realização de uma Avaliação Ambiental Estratégica abrangente capaz de avaliar, em escala territorial, os impactos cumulativos sobre drenagem, microclima, infraestrutura, recursos hídricos e resiliência urbana. O resultado é a ampliação de pressões sobre sistemas já próximos do limite operacional.


Os eventos recentes demonstram que obras convencionais isoladas — canalizações, piscinões ou ampliação viária — não serão suficientes diante da nova realidade climática. Torna-se indispensável incorporar soluções baseadas na natureza, infraestrutura verde, aumento de permeabilidade, recuperação de cursos d’água urbanos, arborização e planejamento adaptativo integrado.


A Nota Técnica do CEMADEN reforça também a necessidade de fortalecer a governança preventiva do território. Adaptar cidades às mudanças climáticas não é apenas uma agenda ambiental: trata-se de uma política de proteção econômica, social e sanitária.


Mais do que responder a desastres, será necessário reorganizar o modelo de ocupação urbana e de desenvolvimento territorial à luz dos limites ambientais e climáticos do século XXI.


*Ivan Carlos Maglio – Engenheiro Civil, Doutor em Saúde Pública (USP), Pós-Doutor em Adaptação Climática e Planejamento Urbano (FAU-USP), Diretor da Política e Planejamento Ambiental Ltda, membro do Conselho Deliberativo da EngD.


Conheça a íntegra da NOTA TÉCNICA Nº 627/2026/SEI-CEMADEN:


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