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Neoindustrialização sob cerco

  • Foto do escritor: EngD
    EngD
  • 13 de jan.
  • 5 min de leitura

Maria Luiza Falcão



Durante anos, a palavra “indústria” desapareceu do vocabulário oficial brasileiro. Foi substituída por expressões neutras como “ambiente de negócios”, “ganhos de eficiência” e “integração às cadeias globais”. O resultado dessa escolha política travestida de técnica foi inequívoco: desindustrialização acelerada, reprimarização produtiva, perda de densidade tecnológica e enfraquecimento da capacidade estatal de planejamento.


O terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva rompeu com esse ciclo. A indústria voltou ao centro do discurso e, mais importante, ao centro da ação pública. Trata-se de uma inflexão histórica real, que deve ser reconhecida. Mas essa inflexão convive com um paradoxo central que não pode mais ser contornado: o Brasil voltou a falar em neoindustrialização mantendo intacto o regime de juros que inviabiliza o investimento produtivo em escala.


O retorno da política industrial como decisão política


A reconstrução da política industrial brasileira não ocorreu por inércia. Foi fruto de uma decisão política clara: abandonar a tese de que a estrutura produtiva se transforma espontaneamente pela ação do mercado. A formulação da Nova Indústria Brasil (NIB) simboliza esse reposicionamento ao recolocar o planejamento estatal, as missões estratégicas e o financiamento de longo prazo no centro do projeto de desenvolvimento.


Ao contrário do período anterior, a política industrial passa a reconhecer setores estratégicos, gargalos tecnológicos e a necessidade de coordenação entre indústria, ciência, tecnologia, infraestrutura e compras públicas. O Estado volta a assumir que desenvolvimento não é subproduto do equilíbrio macroeconômico, mas construção deliberada.


Nesse processo, o BNDES, sob Aloizio Mercadante reassume papel central. O banco amplia o crédito de longo prazo, retoma apoio à indústria de transformação, fortalece linhas de inovação e volta a operar de forma articulada com objetivos produtivos explícitos. Trata-se de uma ruptura importante com o ciclo em que o financiamento ao investimento foi tratado como distorção a ser corrigida.


Exemplos concretos: onde a nova indústria começa a aparecer


Apesar do ambiente macroeconômico adverso, já é possível identificar sinais de recomposição industrial induzidos pela mudança de orientação do governo. Projetos ligados à transição energética, à mobilidade elétrica, à indústria farmacêutica e à cadeia da saúde voltaram a ocupar espaço na agenda produtiva nacional.


Observa-se a retomada de investimentos em biocombustíveis avançados, equipamentos para energia solar e eólica, produção local de insumos médicos e hospitalares, além da expansão de segmentos associados à indústria de defesa e aeroespacial. Também se fortalecem iniciativas voltadas à economia digital, semicondutores em escala compatível com o mercado interno e tecnologias associadas à eficiência energética.


Há ainda maior articulação entre universidades, centros de pesquisa e empresas, bem como o uso mais estratégico das compras públicas como instrumento de indução produtiva. Esses movimentos são reais, mensuráveis e politicamente relevantes. Mas ainda operam em escala limitada diante do atraso acumulado nas últimas décadas.


O problema não está na ausência de resposta da indústria, mas no ambiente estrutural que restringe sua expansão.


Juros altos: o veto silencioso ao investimento produtivo


A taxa básica de juros no Brasil não é um detalhe técnico. Ela organiza todo o sistema de incentivos da economia. Com juros persistentemente elevados, na casa dos 15% a.a. investir na produção torna-se menos atraente do que rentabilizar recursos no mercado financeiro. O resultado é conhecido: projetos industriais são adiados, escalas produtivas são reduzidas e a inovação perde fôlego.


A convivência entre uma política industrial ativa e uma política monetária restritiva produz um descompasso estrutural. O governo sinaliza investimento e planejamento; o sistema financeiro sinaliza contenção e curto prazo. O discurso aponta para o futuro; os juros puxam para a aplicação imediata.


Nesse ambiente, a neoindustrialização corre o risco de se tornar um conjunto de ilhas de excelência cercadas por um oceano rentista, incapaz de alterar a estrutura produtiva de forma sistêmica.


Banco Central, autonomia e o conflito não assumido


O debate sobre juros no Brasil segue protegido por uma narrativa tecnocrática que oculta seu conteúdo político e distributivo. A autonomia operacional do Banco Central do Brasil cristalizou um regime em que o combate preventivo à inflação se sobrepõe de forma quase automática ao investimento, ao emprego e à transformação produtiva.


O custo dessa escolha é socializado, enquanto os ganhos do rentismo permanecem concentrados. Ainda assim, o conflito entre indústria e finanças segue fora do centro do debate público, como se fosse possível reconstruir uma base produtiva complexa sem subordinar o sistema financeiro aos objetivos do desenvolvimento.


A engrenagem política e o sinal do impasse macroeconômico


Nesse contexto, não é casual que voltem a circular especulações sobre mudanças na condução da política econômica e sobre nomes associados a uma crítica mais explícita ao regime de juros elevados. Essas discussões não dizem respeito a indivíduos, mas ao reconhecimento tácito de que a política industrial já esbarrou nos limites do atual arranjo macroeconômico.


A recorrência do nome de Paulo Nogueira Batista Jr. em debates sobre a Fazenda é reveladora. Ele surge não como solução mágica, mas como símbolo de uma inflexão desejada: a repolitização da macroeconomia e o enfrentamento direto do poder do rentismo. O fato de essa especulação persistir indica que cresce a percepção de que exceções institucionais — crédito direcionado, BNDES, compras públicas — já não bastam.


Trata-se de um sinal claro de esgotamento. Quando o debate passa dos instrumentos setoriais para o regime macroeconômico, é porque o problema deixou de ser periférico.


Casa Civil e coordenação do desenvolvimento


Nesse mesmo registro, a discussão sobre a saída de Rui Costa da Casa Civil não pode ser tratada como mero rearranjo administrativo. A Casa Civil é o núcleo de coordenação do governo e exerce papel decisivo na articulação entre política econômica, política industrial, orçamento e planejamento de longo prazo.


A eventual substituição por Miriam Belchior poderia sinalizar uma inflexão relevante. Sua trajetória está associada ao planejamento estatal, ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), fundamental para dar escala e previsibilidade à política de neoindustrialização, à coordenação de grandes programas de investimento e à integração entre políticas públicas. Uma mudança nessa direção reforçaria a dimensão desenvolvimentista do governo e a capacidade de alinhar indústria, infraestrutura e orçamento.


Ainda assim, nenhuma reorganização institucional produzirá resultados estruturais se o principal veto ao desenvolvimento permanecer intocado.


Avanços reais, limites estruturais e a urgência do conflito


O governo Lula recolocou a indústria no centro do projeto nacional. Reconstruiu instrumentos, retomou o planejamento e voltou a tratar a estrutura produtiva como questão estratégica. Esses avanços são reais e distinguem claramente o atual governo do ciclo anterior de desmonte.


Mas eles já começam a esbarrar em um limite objetivo. Não existe neoindustrialização robusta convivendo pacificamente com a hegemonia do rentismo. Não existe política industrial capaz de prosperar quando o custo do capital empurra sistematicamente recursos para fora da produção. Não existe transformação estrutural sem conflito político explícito.


Manter juros estruturalmente elevados não é uma imposição técnica inevitável. É uma escolha política que bloqueia o futuro produtivo do país. Enquanto essa escolha não for enfrentada, a neoindustrialização brasileira seguirá sendo correta na intenção, mas insuficiente no impacto.


O Brasil já sabe o que precisa fazer. Já dispõe de instrumentos, projetos e capacidade técnica. Falta enfrentar o verdadeiro obstáculo.


A pergunta, portanto, deixa de ser analítica e passa a ser decisiva:


Há neoindustrialização possível com uma Selic estruturalmente alta?


Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).


Publicado originalmente no Jornal GGN: Neoindustrialização sob cerco, por Maria Luiza Falcão

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