A engenharia do poder: por que a China escolheu engenheiros para governar
- EngD
- há 4 horas
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Washington Araújo
Sob Cavalo e Dragão, símbolos de impulso e poder, a China inicia o ano 4724 renovando estratégia sustentada por engenharia e planejamento de longo prazo

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Há países em que a política é um palco. Na China, ela se parece mais com uma usina. Se alguém deseja alcançar o topo do poder em Pequim, já sabe que o caminho não começa nos cursos de retórica, mas nos laboratórios, nos canteiros de obras, nos centros de cálculo estrutural.
A senha é clara: Engenharia.
E, se possível, com currículo de entregas monumentais — liderar o programa espacial, erguer a maior hidrelétrica do planeta ou comandar a universidade que muitos chamam de “MIT chinês”.
Desde 1993, a sequência é quase didática. Jiang Zemin, engenheiro elétrico. Hu Jintao, engenheiro hidráulico associado à monumental Barragem das Três Gargantas. E o atual presidente, Xi Jinping, formado em Engenharia Química. Três décadas consecutivas com engenheiros ocupando o cargo mais alto da segunda maior economia do planeta.
Não é acaso estatístico. É método institucionalizado.
Esse padrão não se limita ao topo do sistema. Ele desce a escada do poder e estrutura o funcionamento do Estado. Em Xangai, a maior cidade chinesa em população urbana, o comando partidário está nas mãos de Chen Jining, engenheiro civil, doutor pela Imperial College London e ex-reitor da Universidade Tsinghua — frequentemente apelidada de “MIT chinês”. O detalhe institucional importa: ser chefe do Partido na cidade pesa mais do que o título de prefeito. Na China, a política real corre pelos trilhos partidários e pela lógica de resultados.
Em Xinjiang, a maior região administrativa do país, governa Ma Xingrui, engenheiro aeroespacial, doutor pelo Harbin Institute of Technology, ex-diretor do programa lunar chinês. Em Chongqing, metrópole colossal em território e influência industrial, o comando está com Yuan Jiajun, também engenheiro aeroespacial, doutor pela Beihang University, projetista da nave Shenzhou e ex-vice-presidente da China Aerospace Science and Technology Corporation.
Mas, atenção: eles não são burocratas convencionais. São dirigentes formados na resolução de problemas complexos, acostumados a metas, cronogramas e métricas.
O Congresso Nacional do Povo segue a mesma lógica. Mais de 600 deputados possuem formação em STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Entre eles, Zhang Qingwei, engenheiro de foguetes e ex-presidente da COMAC, a fabricante aeronáutica vista como a Embraer chinesa. Ou Qian Zhengying, engenheira civil, ex-reitora da Hohai University e ministra em posições estratégicas. A formação técnica não é exceção decorativa. É eixo estruturante.
O que esse mosaico revela, portanto, é que a “fábrica” de líderes na China está ancorada na cultura da entrega concreta.
Antes de administrar narrativas, é preciso administrar obras, sistemas, cadeias produtivas. O poder, ali, não é legitimado pelo brilho midiático, mas pela capacidade de expandir infraestrutura, acelerar inovação, sustentar crescimento industrial e consolidar autonomia tecnológica.
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Washington Araújo é Jornalista, escritor e psicanalista; mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília, com especialização em Cinema, graduado em Jornalismo e em Psicanálise Clínica, e professor de Sociologia da Comunicação, Ética e Direitos Humanos. O artigo de opinião completo está na Revista Fórum: A engenharia do poder: Por que a China escolheu engenheiros para governar - Revista Fórum

