A Luta Feminista: O Imperialismo, as Crises e a Encruzilhada do Identitarismo no Século XXI
- Miguel Manso
- 6 de mar.
- 8 min de leitura

Em homenagem à memória da querida Ilda Fiori,
incansável lutadora e construtora deste caminho...
"Apesar de todas as leis emancipadoras,
a mulher continua sendo uma escrava doméstica,
porque o pequeno trabalho doméstico a esmaga,
a sufoca, a torna ignorante e a degrada,
acorrentando-a à cozinha e à creche.... Isso, e somente isso, abre o caminho para a emancipação completa e efetiva da mulher,
sua libertação da 'escravidão doméstica'
através da transição do pequeno trabalho doméstico individualizado para serviços socializados de larga escala."
(V.I. Lenin, 1921, no Dia Internacional da Mulher)
Por Miguel Manso
Este artigo propõe uma análise da luta feminista no século XXI à luz do materialismo histórico e dialético. Partindo da premissa de que a "luta feminista" é indissociável da totalidade social. Examina-se como as crises orgânicas do imperialismo — o rentismo parasitário, a ascensão do fascismo e a escalada belicista — se abatem de forma particular sobre os corpos e os direitos das mulheres, revertendo conquistas e aprofundando a exploração. Investiga-se a relação intrínseca entre a luta pela emancipação feminina e as lutas democráticas e de libertação nacional, entendendo que a soberania popular e a ruptura com a dependência são pré-condições materiais para a superação das opressões. Por fim, a partir da dialética entre o particular e o universal, o artigo confronta o identitarismo, questionando se as políticas de reconhecimento dissociadas da crítica à economia política funcionam como ferramenta de emancipação ou como armadilha, que fragmenta a classe trabalhadora e desvia o foco da luta contra o capital-imperialismo.
A Totalidade em Movimento
Para o materialismo histórico e dialético, a realidade não é um amontoado de fatos isolados, mas uma totalidade concreta em constante movimento, estruturada por contradições [citação: 6]. A opressão da mulher não é uma categoria eterna ou um apêndice da luta de classes, mas uma dimensão estruturante do modo de produção, que, no capitalismo, adquire formas específicas e complexas. Compreender o feminismo no século XXI exige, portanto, que se parta da análise do estágio atual do capitalismo: o imperialismo e sua crise orgânica.
A virada para o século XXI aprofundou o caráter parasitário do capital financeiro. O imperialismo, na sua fase de financeirização, não busca apenas a exploração da força de trabalho, mas o controle absoluto sobre territórios, recursos naturais e Estados, impondo políticas de austeridade, desregulamentação e privatização que transferem renda para o capital fictício. É nesse terreno movediço que os direitos duramente conquistados pelas mulheres são colocados à prova.
A Crise do Imperialismo e a Ofensiva sobre os Direitos das Mulheres
As crises do capital não são eventos neutros do ponto de vista de gênero. Elas são geridas de forma a recair com mais violência sobre os ombros das mulheres, particularmente as da classe trabalhadora.
O Rentismo Parasitário e a Reprodução Social: O capitalismo rentista, ao desmontar o Estado de bem-estar social (onde ele existiu) e precarizar o trabalho, transfere para as famílias — e, dentro delas, para as mulheres — o custo da reprodução social. A carestia, o desemprego e o desmonte dos serviços públicos (saúde, educação, creches) significam uma sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidados não remunerado. A mulher trabalhadora é a principal vítima da "flexibilização" trabalhista, sendo empurrada para subempregos, sem direitos, enquanto sua jornada dupla ou tripla se intensifica. O rentismo, portanto, não é apenas uma abstração econômica; ele se materializa na exaustão física e mental de milhões de mulheres que precisam "dar conta" da casa, dos filhos e da sobrevivência num mundo que as explora e as abandona.
Fascismo: A Restauração da "Ordem" pela Violência de Gênero: A história nos mostra que a ascensão do fascismo está intimamente ligada à resposta violenta do capital às suas crises, utilizando o terror para desmantelar a organização da classe trabalhadora. E, como demonstram os regimes de Mussolini, Hitler e Franco, o fascismo tem um projeto explícito para as mulheres. O lema nazista das "três K" (Kinder, Küche, Kirche - Crianças, Cozinha, Igreja) não é um folclore, mas a síntese de uma política de Estado que visa reduzir a mulher à sua função biológica e doméstica.
Controle dos corpos: O fascismo histórico restringiu a liberdade reprodutiva, promovendo a natalidade para a "pátria" e para a "raça", ao mesmo tempo que esterilizava e exterminava as consideradas "indignas".
Expulsão do espaço público: As mulheres foram sistematicamente expulsas dos postos de trabalho e da vida política para que os homens (desempregados pela crise) pudessem ocupar seu lugar, restabelecendo a "ordem" patriarcal abalada .
Violência como pedagogia: A violência sexual, as torturas e as humilhações públicas (como cabeças rapadas) foram instrumentos sistemáticos de repressão e terror, usados tanto para punir as mulheres "rebeldes" quanto para atingir e desmoralizar seus companheiros de luta.
No século XXI, as novas direitas e o neofascismo atualizam esse programa. O ataque aos direitos reprodutivos, a criminalização do aborto, a "ideologia de gênero" como fantasma a ser combatido e a misoginia explícita nas redes sociais são a ponta de lança de um projeto que vê na autonomia feminina uma ameaça à sua visão de mundo hierárquica e autoritária.
Guerras: O Corpo Feminino como Campo de Batalha: As guerras imperialistas são a expressão máxima da barbárie capitalista. Para as mulheres, a guerra não é apenas um cenário de morte, mas uma realidade de violência específica.
O estupro é utilizado como arma de guerra, como estratégia de terror, humilhação e limpeza étnica. As mulheres deslocadas e refugiadas são as mais vulneráveis às redes de tráfico e à exploração sexual. Ao mesmo tempo, a guerra as convoca para funções tradicionais (enfermeiras, cuidadoras, "retaguarda" afetiva) ou, numa contradição aparente, as mobiliza para a linha de frente, como fizeram as milicianas na Guerra Civil Espanhola ou as staffette (mensageiras) da Resistência Italiana.
Essa mobilização, no entanto, raramente se traduz em emancipação duradoura, sendo frequentemente seguida por um refluxo que as empurra de volta para o lar, como ocorreu na Espanha franquista.
A Luta de Libertação da Mulher e a Luta Democrática e Anti-imperialista
Se a opressão se aprofunda com a crise do imperialismo, a luta contra essa opressão não pode ser separada da luta contra o sistema que a engendra. O materialismo histórico ensina que a emancipação da mulher está condicionada à transformação revolucionária da sociedade.
Unidade na Diversidade: A Mulher na Luta de Classes: A classe trabalhadora não é um bloco homogêneo e abstrato. Ela é composta por homens, mulheres, negros, brancos, LGBTQIA+, com experiências de opressão específicas. Ignorar a especificidade da opressão da mulher é cair num economicismo vulgar. No entanto, fragmentar essas lutas em compartimentos estanques é cair no oposto: numa política identitária que perde de vista o inimigo comum.
As mulheres sempre estiveram na vanguarda das lutas. Foram as operárias têxteis nas greves do início do século XX, as milicianas antifascistas na Espanha, as guerrilheiras na Resistência Italiana, as lutadoras da indústria "conservera" e dos bairros populares contra o franquismo.
Essa história demonstra que a luta por demandas específicas (creche, igualdade salarial, fim da violência) se potencializa quando integrada à luta geral dos explorados. A mulher que luta no sindicato, no movimento de moradia ou contra a carestia está, na prática, unificando sua condição de oprimida e de explorada.
Libertação Nacional e Soberania Popular: Em países de capitalismo dependente e periférico, essa unidade se torna ainda mais crucial. O imperialismo não apenas explora, mas deforma as estruturas econômicas e sociais, gerando superexploração da força de trabalho e miséria. Nesses países, a opressão da mulher trabalhadora é triplamente determinada: por sua classe, por seu gênero e pela condição de país explorado.
A luta pela libertação nacional — entendida como a ruptura com os grilhões do capital financeiro internacional, a retomada da soberania sobre os recursos naturais e a implementação de um projeto de desenvolvimento voltado para as maiorias — não é uma pauta "masculina" ou secundária. Ela é uma condição material para que políticas de emancipação feminina possam florescer.
Sem soberania, não há como defender um parque industrial que garanta empregos dignos. Sem controle estatal sobre o sistema financeiro, não há recursos para investir em serviços públicos de qualidade que liberem a mulher do trabalho doméstico forçado.
A luta anti-rentista e anti-imperialista é, portanto, uma luta profundamente feminista, pois ataca as bases materiais que sustentam a exploração.
O Identitarismo é Solução ou Fuga da Luta?
Eis o cerne do debate contemporâneo. A ascensão do identitarismo — a política que coloca a identidade (de gênero, raça, orientação sexual) como eixo central e frequentemente exclusivo da ação política — é um fenômeno complexo. Por um lado, ele emerge da justa percepção de que as opressões específicas foram historicamente negligenciadas pelas esquerdas tradicionais. Por outro, em sua forma dominante, ele se converte numa armadilha.
A Crítica Marxista ao Identitarismo: A crítica materialista dialética ao identitarismo não é uma negação das identidades ou das opressões, mas uma crítica à sua absolutização.
Quando a política se reduz à afirmação de identidades, perde-se a capacidade de analisar a totalidade. A ênfase na vivência subjetiva e na "dor" individual, muitas vezes descolada da análise material da exploração, pode levar a uma fragmentação infinita do sujeito político.
Fragmentação da Classe: Ao hipertrofiar as diferenças e hierarquizar as opressões (quem sofre mais?), o identitarismo dificulta a construção da unidade na diversidade, que é a base de qualquer projeto de poder popular. Divide a classe trabalhadora em nichos de consumo político, cada um com suas pautas específicas, em vez de unificá-la em torno de um programa comum contra o capital [citação: 6].
O Desvio do Inimigo Fundamental: Ao focar a luta principalmente em questões de representação, linguagem e "lugar de fala" no interior das instituições (muitas vezes burguesas), o identitarismo pode desviar o foco da luta contra o imperialismo, o rentismo e o fascismo. É mais fácil para o capital aceitar uma cota de diversidade em seus conselhos de administração do que aceitar o controle dos trabalhadores sobre a produção.
A Cooptação pelo Mercado: A lógica identitária é facilmente absorvida pelo mercado. A "diversidade" e o "empoderamento" viram nichos lucrativos, marcas de cosméticos com "mulheres reais" e produtos com bandeiras LGBT. Essa inclusão simbólica e mercadológica convive pacificamente com a exploração brutal da mulher trabalhadora na fábrica ou na plataforma de entrega.
A Solução Dialética: Do Particular ao Universal: Isso significa que a luta das mulheres por seus direitos específicos é irrelevante? Absolutamente não. A solução não está no abandono das pautas específicas, mas na sua articulação dialética com a luta universal da classe trabalhadora.
A força do materialismo histórico está em demonstrar que a superação da opressão específica da mulher (a violência doméstica, a dupla jornada, a desigualdade salarial, a falta de autonomia sobre o corpo) está intimamente ligada à superação do sistema que a produz e a reproduz.
Não se trata de esperar a revolução para resolver a violência doméstica, nem de acreditar que a revolução por si só a resolverá magicamente.
Trata-se de construir um feminismo que seja anti-capitalista, anti-imperialista e internacionalista.
Um feminismo que lute pelo direito ao trabalho digno e com igualdade de direitos, à maternidade protegida pela sociedade, ao aborto legal e por creches, mas que também lute contra a carestia e pelo fim da exploração do trabalho, pela libertação nacional e pelo controle público dos bancos, sob poder popular.
Um feminismo que denuncie a violência do patriarcado no lar, do patriarcado como instrumento de poder e propriedade sobre as mulheres, mas também a violência do Estado policial, dos exploradores sobre os explorados, pela paz e pelo fim das guerras imperialistas e seus genocídios.
Um feminismo que, partindo da experiência concreta da mulher trabalhadora, construa pontes de solidariedade com todos os oprimidos e explorados, forjando a unidade necessária para enfrentar o inimigo comum: o capital-imperialismo e suas expressões políticas, o fascismo e a guerra.
O século XXI recoloca para o feminismo a mesma questão que a Guerra Civil Espanhola colocou para as Mujeres Libres e para a Sección Femenina: a serviço de que projeto político estamos?
Ou estamos ao lado da ordem burguesa imperialista, do imperialismo e do fascismo, ainda que disfarçados com pautas identitárias e de "empoderamento" individual, ou estamos ao lado da classe trabalhadora e dos povos em sua luta por libertação.
A História demonstra que não há meio-termo.
A crise do imperialismo acirra as contradições e nos obriga a tomar partido. As políticas de reconhecimento identitário, quando divorciadas da luta pela transformação material da sociedade, transformam-se em seu oposto: numa fuga para frente que fragiliza a resistência e abre caminho para a barbárie.
A emancipação da mulher, assim como a emancipação humana, exige a abolição do sistema que cria e necessita da opressão. Exige a luta organizada, unitária e internacionalista por um mundo para além do capital, do imperialismo e do patriarcado.
Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.
Referências
Para a elaboração deste artigo, foram consultadas diversas fontes que abordam a relação entre gênero, fascismo e resistência sob uma perspectiva histórica e materialista.





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