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IA, IA, IN ou IN?

Por Pedro Pereira de Paula


Faz uns 20 anos, instalei no meu computador um programa de xadrez. Não sou nenhum fanático e muito menos um grande jogador, porém, eu gostava de jogar de vez em quando com amigos ou familiares. Quando instalei o programa, fazia um certo tempo que não jogava, estava destreinado e perdia para aquele programa como um principiante. Um dia, depois de perder umas 15 vezes consecutivas para aquele programa, acho que estava inspirado e, depois de uns 10 lances - todas as peças ainda estavam no tabuleiro - eu coloquei o meu adversário digital em maus lençóis. Fiz um lance com a minha rainha que me colocou com boas chances de dar um cheque mate no infeliz. O que ele fez? Roubou! Criou e enfiou um peão suplementar, devidamente protegido, na frente da minha rainha. No jogo de xadrez há 8 peões e, depois desse roubo descarado, ele ficou com 9 peões no tabuleiro.


Salvei o arquivo digital deste jogo e enviei para a empresa americana proprietária do programa que me respondeu com as desculpas esfarrapadas de sempre. Puxa vida, isto nunca tinha acontecido antes, sentimos muito, pedimos desculpas pelos transtornos e vamos corrigir este problema. Só me restou remover o programa do meu computador e jogar no lixo o disco de instalação.


Ultimamente, muito se tem falado sobre inteligência artificial (IA). Escrevi este texto para fazer alguns comentários sobre este tema. Aproveito também para falar um pouco sobre a inteligência natural (IN) e sobre a ignorância natural (IN). E porque não falar também da ignorância artificial (IA)?


Acho pertinente dar algumas contribuições ao debate baseado na minha própria experiência pessoal como adulto sexagenário, educado no Ensino Primário, Ginasial e Colegial em excelentes escolas públicas em Sorocaba, SP, diplomado em Engenharia Elétrica e com Mestrado e Doutorado nesta área, incluindo também um Pós-Doutorado desenvolvido numa universidade francesa durante um ano. Sou professor desde 1976. Trabalhei como professor no Ensino Fundamental e Médio. Fui Professor Titular de Engenharia Elétrica numa universidade privada. Atualmente trabalho como professor em cursos de pós-graduação. Trabalho há 42 anos com P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) de máquinas elétricas e suas aplicações. Desde meu primeiro ano na universidade, em 1976, tenho usado computadores – e métodos computacionais - sistematicamente como ferramentas de trabalho. Na minha vida pessoal e profissional tive muitas oportunidades de viajar pelo Brasil e no exterior, incluindo duas ocasiões em que morei na França (durante estadias na universidade).


Apresentei este resumo da minha vida para ilustrar a ideia que minhas atividades são baseadas em estudos sistemáticos que requerem dedicação e disciplina para a sua consecução, além de, naturalmente, gostar desta área de trabalho. Acredito que não é possível trabalhar com, por exemplo, motores de relutância chaveados se não gostar do assunto, se não me sentir à vontade trabalhando com cálculos, simulações computacionais, com ensaios em laboratório, leituras dos mais diversos autores que abordam o assunto, além de escrever sobre os meus próprios resultados. Somente assim é possível trabalhar e contribuir efetivamente com o Estado da Arte num determinado assunto. Não é com contribuições esporádicas e acidentais.


Enfim, no meu caso, para obter um conhecimento razoável de qualquer tipo de assunto, foi preciso dedicar um tempo significativo e muito trabalho. O meu conhecimento é o resultado do trabalho e dedicação sistemáticos aos temas do meu interesse. Se um determinado tema não desperta o meu interesse, na melhor das hipóteses, o conhecimento que terei condições de adquirir nunca passarão de arranhões na superfície de um lago de águas calmas.


Eu acredito na Ciência, eu fundamento o meu trabalho na Ciência, o conjunto de conhecimentos adquiridos pela humanidade e que aporta as melhores respostas que podem ser oferecidas às nossas inúmeras questões das nossas existências. Os cientistas da área dizem que o cérebro humano é o resultado de um processo evolutivo. Ao nascer, o ser humano tem um órgão dentro da sua cabeça que precisará ser devidamente estimulado e treinado para que o indivíduo possa se inserir no mundo, na sociedade. Então, é assim que tenho passado as minhas décadas de existência. Nasci, cresci e fui educado rodeado por livros com todos os estímulos e com gosto pela leitura. O conjunto de conhecimentos que adquiri foi construído, tijolinho por tijolinho, pouco a pouco, tudo no seu devido tempo e complementado por atividades culturais, esportivas, de lazer, contando com o conforto da minha casa e o amor familiar.


A presente situação das crianças, adolescentes e jovens me parece completamente antagônica com os cenários a que estávamos expostos até há poucas décadas atrás, nos quais o cérebro humano desenvolveu os seus processos evolutivos. Resumindo, faz poucas décadas, nos horários em que não estavam na escola, as crianças corriam nas ruas, gritavam, brincavam, interagiam intensamente nas mais diversas brincadeiras ao ar livre, caindo, se levantando ou sendo levantada pelos companheiros, se machucando, se lambuzando na lama e chutando enxurradas das chuvas e hoje ficam confinadas em seus aposentos privativos, isoladas, sozinhas, presas nas telas dos celulares, tabletes, computadores e televisores e assistindo passivamente cenas de um mundo inexistente, irreal.


Passividade é antagônica com a evolução. Passividade se coaduna com o retrocesso. Na medida em que as crianças, adolescentes e jovens forem mantidos nestas condições, confinados em seus aposentos privativos, certamente estará garantido o fracasso educacional, certamente estará garantido o fracasso total na possibilidade do desenvolvimento de qualquer forma de inteligência natural (IN), estará assegurada a manutenção e o aprofundamento da ignorância natural (IN). Não há como escapar. Eu parto da premissa de que um indivíduo isolado em seus aposentos, provavelmente, não encontrará razões para evoluir, não encontrará os estímulos que recebemos ao conviver com pessoas reais, com pessoas com as quais temos ou desenvolvemos certas afinidades. Eu acredito que o ser humano é um ser social, que depende de interações para encontrar o seu espaço, para encontrar o próprio significado da sua existência. Somente uma postura ativa diante da vida, com o uso intensivo do cérebro, que coloca o indivíduo diante de situações desafiadoras (ou seja, diante da própria vida) é que o cérebro terá as condições necessárias para ser treinado, usado, desenvolvido e evoluído. Acho que uma das frases atribuídas a Albert Einstein nos ajuda na compreensão deste fato: “a vida é como andar de bicicleta, para manter o equilíbrio é necessário continuar pedalando”.


Num artigo publicado recentemente, consta a informação que os governos de Taiwan e da China tem promulgado leis que interditam o acesso aos meios digitais de crianças com menos de 24 meses e limitam os acessos das crianças e adolescentes até 18 anos. Numa matéria da BBC News Brasil consta que para o neurocientista Michel Desmurget, que lançou livro sobre como os dispositivos digitais estão afetando seriamente — e para o mal — o desenvolvimento neural de crianças e jovens, elas hoje 'são atordoadas por entretenimento bobo, privadas de linguagem, incapazes de refletir sobre o mundo, mas felizes com sua sina’.


Numa entrevista recente, e muito esclarecedora, sobre o tema IA, o professor Miguel Nicolelis citou alguns exemplos das consequências do uso intensivo dos meios digitais. Ele disse que os finlandeses planejam abolir o uso intensivo de computadores nos processos educacionais dos estudantes por terem concluído que os meios digitais provocam efeitos deletérios. Ele mencionou também que tem sido observada uma queda sistemática e consistente dos resultados dos testes de QI dos estudantes das escolas americanas, além de uma diminuição significativa do seu vocabulário. Ele contou também que os motoristas de táxi mais idosos de Londres que sempre usaram mapas e guias das ruas para se orientar têm determinadas funções cerebrais mais desenvolvidas do que os motoristas mais jovens que usam os aplicativos disponíveis nos celulares. Ele relatou também uma conversa com um amigo suíço que comentou que os estudantes atuais não dominam mais as ferramentas que nós, os mais idosos aprendemos nas nossas escolas, tais como calcular raízes quadradas, usar réguas de cálculo e outros métodos.


Enfim, estes são alguns exemplos de que alguns tipos de efeitos são provocados nos nossos cérebros pelo uso intensivo dos meios digitais.


Tenho visto pessoas mais jovens manifestando preocupações com o seu futuro, manifestando dúvidas sobre a sua capacidade de encontrar espaços num mercado de trabalho cada vez mais ocupado por máquinas e sistemas computacionais. Não vou aqui propor soluções como as que grupos de trabalhadores ingleses dos séculos XVIII e XIX adotaram ao quebrar as máquinas que os estavam substituindo em seus trabalhos. Acredito que, dentro dos nossos contextos atuais, os jovens que estão desenvolvendo os seus processos de formação devem ser encorajados para fazer o que estamos fazendo há dezenas, centenas ou milhares de anos, ou seja, estudando, trabalhando e encarando as diversas situações que a vida nos impõe usando intensivamente nossos cérebros que, desta maneira, nos capacitam melhor para assegurar o sucesso na sobrevivência e evolução. Enfim, é a postura ativa e altiva diante da vida que propicia o desenvolvimento, o fortalecimento e a capacitação do indivíduo para os inúmeros desafios que deverá encarar ao longo da sua existência.

Acho que não há muitas possibilidades para prever o futuro, para ter alguma ideia de como será o futuro, quais as tecnologias que prevalecerão ou que se imporão nas nossas sociedades. O fato é que cada indivíduo, principalmente os que estão em processos de formação, devem ser fortemente encorajados e estimulados para desenvolver seus cérebros ao máximo possível. Observe, caro leitor, o intervalo de tempo cada vez menor que um novo achado científico se transforma em algum tipo de produto disponível no mercado, que era algo como 100 anos no começo do século XIX para poucos anos como é hoje.


Claro que existem no horizonte conhecimentos científicos que se forem realmente dominados e tornados viáveis para o uso em larga escala, tais como, fusão nuclear, supercondutores, computação quântica, promoverão verdadeiras revoluções nos mais diversos aspectos da nossa vida em sociedade. Não sabemos quando tais conhecimentos, ou ainda outros que nem sequer vislumbramos, estarão dominados e disponíveis.


Não pretendo entrar num debate científico sobre IA, porém, pelo que sabemos, ainda não há nenhuma máquina que seja capaz de fazer perguntas originais a partir da sua própria experiência cognitiva e analítica. Afinal, alguém já disse que se pode avaliar a inteligência de uma pessoa pelas perguntas que faz, não pelas respostas que oferece. Alguém conhece alguma máquina que tenha feito alguma pergunta como as que Einstein se propôs ao desenvolver o seu trabalho científico e que mudou completamente o entendimento que havia do universo? Ou ainda, alguma pergunta bem mais simples que essas mencionadas?


Eu coloco estas questões desta maneira porque já vi pessoas, até um pouco assustadas, assumindo que as respostas oferecidas pelas máquinas com estas tecnologias de IA são as referências universais da verdade. As coisas não são exatamente desta maneira, as máquinas “inteligentes” são apenas máquinas com grande capacidade de processamento usando métodos estatísticos para oferecer as melhores respostas possíveis baseadas no “conhecimento” interno dos seus bancos de dados, do seu histórico armazenado em seus sistemas de memória. Não são máquinas que “olham” para o futuro, são máquinas que funcionam somente baseadas no passado. Não são máquinas capazes de oferecer respostas originais aos problemas apresentados.


Outro aspecto a destacar é que as máquinas “inteligentes” funcionam baseadas em métodos computacionais usando algoritmos que podem ser traduzidos em procedimentos passo a passo, procedimentos criados pelos indivíduos que os desenvolveram. Indivíduos humanos, logo, com todas as virtudes e defeitos humanos. Imagine que você está viajando num avião numa região com fortes turbulências e alguma coisa errada e muito séria acontece. Em quem você depositaria melhor suas esperanças de sobrevivência? Num piloto experiente no comando da aeronave ou num algoritmo genético desenvolvido por um profissional que não está dentro do avião?


Da minha parte eu não tenho dúvidas, apostaria no piloto experiente. Veja, por exemplo, o caso do peão suplementar no jogo de xadrez. O profissional que desenvolveu o programa, por algum motivo, simplesmente, esqueceu de colocar instruções de programa proibindo terminantemente a criação de peões ou quaisquer outras peças suplementares para se defender da possibilidade da derrota. Não estou aqui fazendo um juízo de valores, somente estou destacando a falibilidade humana, não dá para pensar em tudo, não dá para prever (e programar) todas as situações, principalmente aquelas que ninguém imagina que existem e que, se aparecem diante de nós, é necessário ter um piloto experiente no comando.


Outro dia pedi para um colega, com quem estou desenvolvendo alguns projetos de aplicações de máquinas de relutância, para consultar estes portais de IA disponíveis na internet sobre este tema específico com uma pergunta abordando possíveis nichos de mercado para este tipo de equipamento. As respostas foram uma coleção de bobagens sem sentido, muito distantes da realidade. É claro que alguém pode argumentar que este é um assunto muito específico e que os programas de IA ainda não tiveram tempo suficiente para evoluir para apresentar respostas mais bem fundamentadas, mais condizentes com a realidade. Claro que sim, pois, os programas evoluem e aprendem com os usuários, com as questões que lhes são apresentadas e este é um ponto importante do debate sobre o tema deste artigo.


O uso intensivo das ferramentas de IA disponíveis pode levar a uma acomodação dos usuários, na medida em que eles considerarem os resultados apresentados como corretos, irretocáveis e adequados para as suas necessidades. Desta maneira, um certo número de usuários pode, simplesmente, assumir uma postura passiva diante dos seus objetos de trabalho ou de estudos e aceitar tudo o que vier como respostas dos sistemas de inteligência artificial, aceitar passivamente sem executar qualquer tipo de análise crítica. Na medida em que um usuário se enveredar por este caminho de aceitação destituída de senso crítico, o seu próprio cérebro vai acabar sofrendo as consequências desta acomodação, vai acabar definhando pelo uso insuficiente, na medida em que não será mais demandado para desempenhar papéis complexos e inéditos.


Este cenário será refletido nas questões elaboradas por usuários acomodados e destituídos de senso crítico. As questões dos usuários são um reflexo da sua capacidade de trabalho, da sua compreensão do mundo à sua volta e também, no caso de usuários acomodados, terão um grau de complexidade inferior, levando a uma simplificação das formas de abordagem dos problemas, levando a uma simplificação das perguntas apresentadas, levando, consequentemente, a uma simplificação das abordagens dos programas de IA, que serão contaminados pela deterioração do conhecimento do usuário aqui imaginado. Os programas de inteligência artificial (IA) contaminados por sistemas ou condições de uso com tais características deletérias, serão afetados, e tenderão a ser programas que desenvolverão a ignorância artificial (IA) podendo levar a uma decadência, ou até mesmo à falência, não só dos programas como dos seres humanos que os utilizam. A ignorância artificial pode ser observada, por exemplo, nas respostas obtidas sobre motores de relutância. Enfim, é algo parecido como tomar o abraço do afogado, condição na qual, todos afundam.


As teorias científicas existentes não são a expressão da verdade absoluta e inquestionável. As teorias científicas são teorias cosmológicas, como disse o professor Miguel Nicolelis, são alguma coisa como métodos que o cérebro desenvolve para encontrar explicações plausíveis, compreensões razoáveis do mundo (ou do universo) onde está inserido, de forma a poder contribuir com o sucesso na evolução e na sobrevivência do indivíduo. Vejam, por exemplo, o mundo descrito pela Mecânica Clássica até o final do século XIX e a verdadeira revolução provocada pela Teoria da Relatividade de Albert Einstein a partir do início do século XX.


Isto significa que as teorias científicas podem explicar “partes” da verdade absoluta, restando enormes lacunas de conhecimento para a compreensão do todo universal. O reconhecimento deste fato traz aos cientistas a certeza das dúvidas, a certeza das enormes limitações do conhecimento humano. Este fato deve ser levado devidamente em consideração para avaliar a precisão que um determinado aspecto da vida pode ser previamente determinado ou compreendido. Além de um certo ponto, restará a certeza da dúvida, restará a certeza das deficiências contidas na tentativa de compreensão de uma determinada situação, o que levará a um questionamento dos fundamentos científicos envolvidos. Este questionamento acaba resultando em novas perguntas que contribuem para a evolução das próprias teorias, da precisão que elas têm para prever determinados tipos de resultados ou até mesmo para mostrar novos caminhos que levam a um aprimoramento do conhecimento cosmológico ou, até mesmo, a criação de teorias completamente novas.


Os erros cometidos pelos seres humanos também contêm um enorme potencial para contribuir com a evolução do conhecimento. É preciso estar preparado para reconhecer os erros cometidos e ter a humildade suficiente para admiti-los e para procurar corrigir o que for necessário.


Todos estes aspectos mencionados só podem ser abordados por seres humanos, por seres que tenham verdadeiramente uma inteligência aguda e um senso de curiosidade profundo.


Partindo para a finalização deste texto, é claro que é necessário pontuar e reconhecer a importância das máquinas e dos sistemas computacionais no desenvolvimento humano, das suas condições de conforto, de trabalho, de saúde e, até mesmo, de longevidade que propiciam. É claro também que é importante não utilizar estes sistemas de inteligência artificial para controlar os lançamentos de mísseis com ogivas nucleares, para controlar sistemas que podem lançar produtos químicos nocivos no meio ambiente e sistemas semelhantes.



Sem dúvida, as contribuições das evoluções científicas e tecnológicas são extremamente relevantes. Porém, é fundamental destacar que a ação humana é única, é imprescindível e insubstituível na construção e manutenção do nosso mundo, que é um reflexo do que somos como sociedade.


São Paulo, 15 de abril de 2023.


Por Pedro Pereira de Paula e engenheiro eletricista e membro do Conselho Fiscal da EngD


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