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O golpe foi também ferroviário


José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro, membro do Conselho Deliberativo da EngD e presidente da FerroFrente (Frente Nacional pela Volta das Ferrovias).


É chegado o momento de discutir a renovação das concessões de ferrovias e, mantendo a tradição democrática que o destacou em gestões pretéritas, o governo Lula, por meio do seu Ministro dos transportes, Renan Filho (MDB), criou uma comissão ampla, reunindo os vários setores e técnicos qualificados para discutir esse assunto espinhoso e que requer atenção redobrada.


Muito se tem falado do golpe, que se iniciou já nos desdobramentos das marchas de junho de 2013, passou pelo impeachment sem crime de responsabilidade e culminou na prisão sem provas do maior líder político do país. Diz-se que foi um golpe civil-militar, devido ao recado do General Villas Bôas, diz-se que o golpe também foi estético, e é verdade, mas foi também um golpe ferroviário.


Onde assento essa afirmação? Certamente não é do nada. Senão vejamos, ao redor de 2015, quando o governo Dilma exigia regras mais justas para as concessões, uma ação da Rumo Logística, que na prática oligopolizou o transporte ferroviário no Brasil, valiam menos de dois reais, menos de um real e noventa centavos, na verdade. Pois bem, hoje oscila ao redor de 22 reais, com picos acima de 25. O valor da companhia à época oscilava ao redor de 3 bilhões de reais, e hoje, Temer e Bolsonaro depois, esse valor é de 40 bilhões de reais. Os dados são públicos, basta uma breve consulta. E isso, caros, não se deu pelo acaso. Me explico.


Investigações preliminares dão conta de que na última renovação antecipada, algo que por contrato ocorre a cada dois anos, o crescimento do faturamento, que entra no cálculo das renovações, foi depreciado em dez vezes, de cinco para zero vírgula cinco por cento. Isso talvez para ser justificado à frente por um erro de digitação. Inúmeras outras irregularidades estão vindo à tona, a valorização acionária astronômica tem seus porquês, mas convém esperar as provas para nos colocarmos cabal e corretamente.


Também foi de razão dez, na verdade mais que isso, a valorização da companhia, como vimos, de 3 para 40 bilhões. Se a depreciação na hora de lançar o faturamento ajudou a construir essa valorização fantástica, ela em si e por si explica o comportamento que o CEO da Rumo, João Alberto de Abreu vem exibindo, como em entrevista concedida no último dia 19 de maio ao Brazil Journal.


Ciente das benesses mal havidas durante o período subdemocrático que vivemos, depois de tecer loas ao novo governo de São Paulo, se põe a ditar regras e ameaçar o novo governo:


“Que todos olhem para frente, não no que está feito. Não se pode voltar atrás em regras, em decisões e normas já consolidadas (...) não ajuda.”


Alto lá, Senhor! Não que eu esperasse coisa muito melhor de sua parte, mas contava pelo menos com o seu cinismo, contava com que pelo menos o senhor fingisse preocupação com o que é correto e dissesse que se há qualquer coisa errada no passado, tem de ser corrigida. Isso enquanto estaria atuando pelo contrário, naturalmente. Mas não, resolve partir para o embate direto e agora merece ser respondido à altura.


Ministro Renan, o senhor tem o nosso respeito, e não precisa se espelhar em ninguém, senão na própria biografia para agir bem e corretamente, mesmo assim ouso sugerir que se espelhe no nosso Ministro Dino, e dê a resposta adequada e, mais, aja com a dureza que impõe a necessidade neste momento crucial. Sim, crucial, ferrovia não é algo menor, basta um olhar, ainda que superficial, nos países que deram mais certo.



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